O quase nada

nuvemSão Paulo anoitece não quando o sol se põe. Dizem que é a cidade que não para. O fato de não haver transporte coletivo em 100% da frota durante a madrugada seria o primeiro ponto para rebater essa idéia, mas deixemos para outro dia. O fato é que quando dá 18h a cidade para e muito. É, também, o horário em que a noite cai, quando não estamos no horário de verão.

Em pequenas cidades do interior, quando anoitece, o comércio fecha, as pessoas vão para casa e pronto. Findou-se o dia. As atividades do dia começam quando o sol aparece e terminam pouco antes de se por, muito pela cultura da falta de energia elétrica, de antigamente. O ‘horário comercial’ da roça, por exemplo é das 5h às 16h. Até às 18h é chegar em casa e terminar o que deve ser feito naquele dia. Meu pai conta que quando escurecia, o dia simplesmenta acabava. Era ficar dentro de casa conversando, tomando café, aquela história.

São Paulo só anoitece quando as ruas estão vazias. Ou seja, há lugares na cidade onde nunca anoitece. Mas você já experimentou passar por um lugar deserto, às três da madrugada? No começo, é aterrorizante. Cada sombra parece guardar alguma coisa má dentro de si. O que dizer então das ruas mal iluminadas? Parece o caminho que precede o vale da sombra da morte. Mas isso é até nos acostumarmos. Pode levar minutos, dias ou anos.

Eu estava, de madrugada, no meio da avenida São Gabriel. Sempre tive a [péssima] mania de andar na rua. As calçadas não foram projetadas para os pedestres, ao que me parece. Não passava ônibus nenhum e pouquíssimos eram os carros, de forma que consegui ficar um bom tempo bem no meio da avenida, só olhando ao redor. A mistura de luzes amarelas e brancas me fazia achar que não fosse aquele horário. Mas o movimento, ou a falta de, não negava: havia anoitecido. Esse é o horário que mais gosto da cidade. O silêncio. O vazio. O quase nada.

Quando ela parece estar inteira em um longo suspiro, de olhos fechados. Como inspirasse todos os acontecimentos do dia, tudo e todos que passaram por ela, assimilasse, reconhecesse a si mesma como parte deles [e eles sendo parte dela] e soltasse o fôlego inspirado. Esse é o momento em que amanhece. E eu fico perdido em algum lugar desse suspiro, em suspense, onde não há ninguém nas ruas e a cidade é só minha.
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A foto não é de São Paulo, mas ilustra o sentimento.

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Uma resposta para “O quase nada

  1. Dois disparos, duas coisas absolutamente diferentes.
    1. o interior. o sítio do ex, em S. Francisco Xavier, onde não havia eletricidade e, portanto, a vida seguia o fluxo do dia. Saudades da conversa à luz de velas, com os sapos e grilos fazendo fundo musical. É bom, principalmente se for por um tempinho só.
    2. Sampa. Adoro a madrugada. Caminhar é exercício de saltitantes, nada foi feito para pedestres aqui – nem a lei. mas eu suspiro quando a cidade silencia. E respiro junto. E fico em paz. Acho que o suspiro de S. Paulo é porque os seus habitantes dormem e param de descuidá-la. 😀
    bj

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