Ternura e olhos que sorriem

as a bird

Ele vinha avionado na Marginal Pinheiros, puxando a fila entre os carros. 110km/h em cima de uma moto de 125cc. Na tragada que deu dentro do carro, ela pensou no longo dia que teve e na pequena noite que desfrutaria. Tragou enquanto suspirava, engasgou com a fumaça e o cigarro, aceso, caiu no banco. No desespero de se queimar, abriu a porta no trânsito parado. Ele vinha avionado, a 110km/h, viu a porta se abrir, gritou “NÃO!” e jogou as pernas pra frente. Levou porta e tudo. Voou longe. Da fila que puxava, mais três se acidentaram. Até hoje ele vê o momento do acidente e grita igualzinho, para mostrar o desespero que passou.

Ficou 21 dias desacordado, na UTI da Santa Casa de Misericórdia. Ele pronuncia ‘misericórdia’ de forma mais lenta, como quem sabe o que a palavra significa e como quem entende o que é ser agraciado por ela. “Maluco, faz uma conchinha com a mão e vira pra cima. Isso. Agora imagina um montinho de areia nela. O médico disse que foi essa a quantidade que perdi dos miolos. Coloca a mão aqui na minha cabeça, sente o buraco que ficou… não quer? Tudo bem”. Ele conta que pediu para ‘fazerem’ um acelerador na sua mão. Perdeu o movimento de quase todos os dedos, então pediu para os médicos reconstruírem o formato exato para sua mão encaixar na manopla do acelerador e poder continuar andando de moto. Quando voltou a trabalhar, proibiram-no de usar moto. Deram um carro pra ele. “Mas eu tô montando a minha motoca. Já tenho o motor, as rodas, o corpo… quase tudo. Só falta desentortar a base do guidão e tá pronto. Mas não conta pra ninguém, que minha irmã não sabe e vai ficar maluca se desconfiar”.

Dos 21 dias em coma, na UTI, ele diz que pulou corda todos os dias, com uma menina que vinha chamá-lo na cama. “Oi, você vem pular corda hoje?” – Mas eu tô quebrado… muito cansado. “Ah, vem… eu sei que você gosta”. – Tá bom. Ele levantava, saía do quarto e chegava no que conta ser o jardim mais bonito que já viu na vida. “Cara, se morrer é ir praquele lugar que eu ia todo o dia com a menininha, me leva agora. Tinha uma flor de cada cor… vermelha, azul, amarela. Tudo enfileirado. Maluco, ia retinho, uma atrás da outra. Que coisa. Eu nunca tinha visto aquela garotinha, nem a mãe dela. Ela amarrava a corda numa árvore bem grande e ficava pulando. Depois a gente trocava e ela que ficava girando aquela corda pra eu pular… vup, vup, vup, fazia aquele barulhão da corda girando. Ia anoitecendo e na hora de ir embora ela sempre reclamava. Mas eu tinha que voltar pro quarto, pra dormir. Pulei corda 21 dias com aquela menina, que nunca mais vi”. No 22º dia, a primeira coisa que fez ao ver os médicos foi: “Cadê a menina?!”. Seus olhos enchem de lágrimas contando sobre a experiência do coma. “Teve um dia que eu disse pra menina que tava cansado, mas não voltei pro quarto. Fui andando lá pra frente, onde tinha um buraco, tipo um túnel, sabe? Fui entrando, precisei agachar, porque ficava menor e era bem escuro lá dentro. Cada vez mais escuro, mais frio e mais estranho. Cheguei num lugar que um maluco me disse ‘Cara, você tá louco?! Teu lugar é aqui não!! Volta lá pra cima e nunca mais volta aqui!’. Eu nunca mais voltei mesmo”.

Ele diz que se você for ao Centro de São Paulo e perguntar pelo motoboy Mumm-Ra [vilão dos Thundercats], todo mundo saberá que é ele. “O de vida eterna, maluco!! Olha só, eu só tenho metade do pulmão direito. Foi um câncer. Tem uma bola aqui no meu pescoço, tá vendo?, que disseram ser um tumor também. Eu quero mais é que venha essa bagaça toda. Tô nem aí. Vem que eu não morro, suas doenças!!”. Ele conta isso enquanto almoçamos. Pega o azeite. “Acho que tenho colesterol alto. Azeite faz mal?” e encharca a comida de azeite. “Minha pressão tá alta… mas eu gosto de sal” e salpica o saleiro em todo o prato. “Sabe essa bolota do pescoço? Os médicos disseram que vinagre não faz bem. Mas eu gosto, então como é que não faz bem? Aceita aí?” ele oferece, enquanto lava o arroz, feijão e bife com vinagre. Na empresa, não tem quem não goste dele. Cumprimenta todo mundo, sempre. Dá bom dia, boa tarde e boa noite. Deseja um bom período de trabalho a todos, não importando se está sol, calor, frio ou chovendo. Se você se der o mínimo trabalho de conversar olhando em seus olhos perceberá, antes de qualquer coisa, ternura. Olhos que acolhem. Olhos que sorriem, que dizem “Fala meu chapa. Qualquer coisa. Eu te ouço”.

A gente levanta e enquanto levo a sacola e lata de refrigerante no lixo, deixo a louça na pia. Ele começa a pegar o prato, talheres e, mesmo eu dizendo “Cara, deixa aí que eu vou lavar”, ele me diz: “Que isso, meu chapa. Tem nada não”.

Tem sim. Ternura e olhos que sorriem.

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6 Respostas para “Ternura e olhos que sorriem

  1. gosto destes textos que me deixam se ter o que dizer.

  2. A loucura da vida vamos levando, loucos.
    Valeu, cara.
    O olhar e sorriso de cá também estão em silêncio.

  3. é daquelestextos que a gente tem vontade de só abraçar. 🙂

  4. poxa, gostei demais. que historia… fui lendo, lendo e quando vi ja tinha acabado de ler:)

  5. Estava procurando “olhos que sorriem” na web e me deparei com esse texto. Não consegui parar de ler. “Impressionante”!!!

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