Ambiguidade é meu nome do meio

Outro dia vi o trecho de um filme em que o casal tem pouco tempo junto. Se reencontram 10 anos após terem se conhecido e nunca mais se visto. Durante as perguntas do tipo “E aí, tem trabalhado aonde?”, a personagem feminina diz: “OK, se hoje fosse seu último dia de vida, o que você gostaria de me contar, pra valer?”

Se hoje fosse seu último dia de vida, o que você conversaria/perguntaria às pessoas? Principalmente àquelas que você não vê com tanta frequência e acaba gastando quase meia hora só com essas perguntas básicas. Fiquei pensando que de vez em quando não quero falar muito sobre aonde estou trabalhando ou sobre a última matéria que escrevi. Não porque isso não seja importante, mas porque parece haver ‘no ar’ outras coisas mais importantes, necessárias ou urgentes a serem ditas. E se você está lendo esse texto, já deve ser grandinho o suficiente para saber que não estou fazendo apologia ao falar só essas coisas importantíssimas, mas refletindo que faltam momentos assim. De falar menos e de falar mais.

Se você espera um texto com começo, meio e um fim que inclui uma moral ou um aprendizado, pode largar aqui. Há dias já que aquela cena está na minha cabeça e hoje peguei a Trip de maio para ler durante o almoço. O que isso tem a ver? Muito. Ando um pouco cansado dessa publicação. Na verdade, desculpem os colegas da Trip, a culpa não é de vocês, da editora ou das pautas. Aquela história: o problema sou eu, se algum problema há. Acho. Ando cansado da maioria das publicações. Seja revista, jornal, site, rádio, TV, Twitter e até meu blog e minha coluna de crônicas. Sentimento de ‘mais do mesmo’, sabe? Especialistas e néscios discutindo a crise mundial, a pendenga da USP, aquecimento global, o 3º mandato do Lula, o avião que caiu e tanta coisa que inunda nossa cabeça que fica difícil organizar o pensamento. Na faculdade de jornalismo a gente estuda esse fenômeno, o da inundação de informação e, por consequência, a não-assimilação de boa parte delas.

O que gostei nessa edição da Trip foi a única matéria que conseguiu reter minha atenção por mais de 10 segundos sem que eu virasse a página: a entrevista que Bruno Torturra Nogueira fez com John Perry Barlow. Difícil explicar quem é o cara [o Barlow, não o Bruno] sem que você não entenda nada e canse de ler esse parágrafo. Sugiro que dê uma lida na Wikipedia, sobre ele. Está em inglês. O ideal é que leia a entrevista toda.

Enfim, o JP Barlow é um daqueles caras que você não entrevista, você troca idéia. Dane-se a pauta e o que você pensou. É bem mais divertido o que ele quer falar do que o que você quer perguntar. E a entrevista envereda por algo meio ‘gonzo’ [do Hunter S. Thompson, não o Muppet] em que o jornalista se mistura à pauta, vivencia o entrevistado e viaja junto. Bruno faz isso de forma simples e sincera. Mas aí eu lembrei do meu porre com as revistonas e jornalões [gíria de jornalista para falar sobre a grande mídia]. Todo esse pensamento me fez descreditar [existe isso?] a entrevista do Bruno. Mais uma vez: não por culpa dele, mas por conhecer, ainda que pouco, os mecanismos de comunicação e publicação. Depois, pensei: Dane-se. Gostei e me fez pensar. Dane-se se a pauta foi pra corroborar alguma idéia ou proposta que eu apenas suponho, não posso afirmar. A minha ambiguidade havia se mesclado à da cena que vi dias atrás, à pauta do Bruno e à ambiguidade do próprio Barlow. Aquele meu azedume com a grande mídia foi derrubado pelo simples fato de pensar: Isso foi importante e eu gostei. Diga o que quiser, eu gostei. Pode ser parte de uma grande conspiração para dobrar as massas, mas eu gostei. Sei [acho] que uma entrevista dessa está longe de ser conspiratória, mesmo sabendo que a conspiração é feita nos detalhes. Até mesmo porque acabei não tendo um grande final para o meu texto, como sempre gosto de fazer. Talvez seja melhor assim. Talvez eu só tenha descoberto que veículos de comunicação são empresas como qualquer outra. Eu já sabia disso, mas talvez só agora tenha assimilado isso, como ‘funcionário’ dessa máquina, que vende jornal ao invés de celular, refrigerante ou carro. É só mais um produto e sou só mais um peão. Que seja bom e divertido onde estiver, o quanto durar. [No final das contas acabei falando sobre o meu trabalho. Ambiguidade é meu nome do meio].

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2 Respostas para “Ambiguidade é meu nome do meio

  1. pensar assim, quando você desiste de “salvar o mundo” e tralalá [que me desculpem os idealistas], é libertador.

  2. Before Sunset é um belo filme.

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