Confesso que a invejei

Foram frações de segundos. Mas tudo isso se passou pela minha cabeça.

Fui atravessar a rua e ela estava sentada no chão. Uma senhora mais morena do que eu, com cobertores ao redor, uma caixa de papelão dobrada para sentar em cima e algumas sacolas. Parecia estar descansando. Estava na esquina, ao lado de uma pequena árvore, que começa a nascer. Ela só olhou para mim e sorriu. Como se fosse uma velha conhecida, apenas sorriu. Não estendeu a mão, não fez cara de dó. Sorriu feliz, de fato. Não tentava agradar ou amolecer meu coração. Estava realmente feliz e expressou o sentimento com um sorriso absolutamente sincero.

Confesso que a invejei, com suas roupas um tanto quanto sujas e gastas. Invejei aquele sorriso autêntico e verdadeiro. A meu ver, ela não tinha motivos para isso. Estava frio, ela não tinha uma casa para morar, um travesseiro para encostar a cabeça quando se sentisse cansada e, provavelmente, dependia da boa-vontade de outros seres humanos para sobreviver. E sejamos sinceros, nós conhecemos bem os seres humanos e que boa-vontade hoje em dia está em falta.

Eu, com minha casa, roupas, cama, edredons e cobertores, iPod e computador, tênis e sandálias, invejei aquele sorriso que nada pedia. Apenas sorria, escancarando a alegria de alguém que ‘não merecia’ aquele sentimento e expondo os meus próprios sentimentos, de quem tem uma vida boa e, ainda assim, não consegue sorrir como ela. Ficou bem óbvio que o que garante esse sorriso não são as coisas que temos. Na verdade, isso sempre foi ‘óbvio’, mas é incrível como nos esquecemos dessas obviedades. O motivo do sorriso é algo mais verdadeiro, algo menos passageiro. Aquela mulher é livre para ser feliz, porque ela não tem nada a perder.

O fato é que ela conseguiu me fazer bem. Quando ela sorriu, minha cara automática de “Desculpe, não tenho nada”, como se ela estivesse pedindo algo, se desfez. Por uma fração de segundo, fiquei sem saber como reagir. Mas aquele sorriso foi fundo. Naquele instante, não havia diferença entre nós. A quantidade de coisas que cada um possuía não fazia a menor diferença. O que fez diferença foi ela ter olhado para mim de igual para igual, me fazendo merecedor daquele sorriso, tanto quanto ela. Com aquele sorriso, ela me trouxe para um patamar de reconhecimento como poucos seres humanos conseguem realizar. Ela me disse: “Sorria, meu querido. Você também pode. Não importa o que digam, esse sorriso é seu também. Faça parte dele.”

E eu fiz, da forma que pude. Sorri de volta para ela, como poucas vezes sorri de volta para alguém. Era um sorriso de agradecimento, pelo que ela havia feito comigo naquele instante. Sorri pela alegria dela e pela alegria que ela havia proporcionado. Como disse, no primeiro instante, eu a invejei. Depois, desejei aprender a ser tão feliz quanto ela, não importando o que eu tenha, quem eu tenha ou onde eu esteja.

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3 Respostas para “Confesso que a invejei

  1. prova cabal de que vc é um dos meus preferidos. Obrigada pelo sorriso Gabo!
    bj

  2. Pingback: Achados na web 62 | Ladybug Brasil

  3. Virei fã dos seus textos. Tu escreve de uma maneira simples, clara e faz a gente se sentir tocado e “se tocar” no sentido de pensar um pouco mais além do que conseguimos fazer normalmente.
    Obrigada por dividir conosco seus pensamentos e sentimentos.

    =*

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