Diretamente de Feira de Santana

Almoçando, vi de longe o senhor de camiseta regata da seleção brasileira, longas barbas brancas e acessórios em todo o canto. Pendurados no chapéu, nos bolsos, no cinto de couro [com cara de vir diretamente de Feira de Santana] e pinduricalhos na mochila. Veio com uma cara triste, quase chorando. Falava enrolado e não consegui ouvir direito, até que chegasse perto de mim e do Alisson. Eu e ele, bobos que somos, demos atenção. Deixamos que ele falasse: “Por favor, me ajudem. Sou um mendigo e só quero alguma coisa” e o resto não entendi. O Alisson perguntou: “Vai ali no balcão e pede alguma coisa, a gente paga. O senhor quer o que?”
– Não, não! Não posso. Sou mendigo. Não vão deixar. É muita vergonha. Tanta gente com tanto dinheiro, disse, cada vez mais triste.
– Mas o senhor quer comer o que? Escolhe ali.
– Não quero comer! Quero um café só, um cafezinho que seja, dessa vez, começando a chorar.
– Então, vai ali no balcão e pega um. Tem café lá.
– Não, não! Sou mendigo. Não posso. É muita vergonha… não vão me deixar entrar.

Alisson olhou pra mim, até agora não sei se me sacaneando ou se falando sério: “Ei Gá, tem alguma coisa aí? Tô sem nada”. Tirei dois reais da carteira e entreguei para o senhor, que já tinha algumas lágrimas correndo pelo rosto. Ele esticou o braço pra pegar a nota de R$2 e assim que a alcançou, mudou de expressão. Toda aquela tristeza sumiu, ficou um pouco sério, com um sorriso sarcástico estampado na cara. Mas a expressão de choro e todo o restante se desfez. Parecia até outra pessoa! Agradeceu e saiu cantando uma música que dizia para Deus me abençoar. Demoramos alguns segundos até sacar que o cara havia nos ludibriado. Alisson começou a gargalhar e eu com aquela cara de quem foi enganado, mas não sabe se ri do próprio infortúnio ou se xinga alguém. De longe, não tínhamos certeza se ele tirava sarro, gritando “Deus te abençoe pela ajuda, meu filho! Deus abençoe seu papai e sua mamãe” ou se falava sério. Ficamos mais alguns segundos, tentando tirar uma lição disso. Era óbvia: o Brasil não é mesmo para principiantes.

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2 Respostas para “Diretamente de Feira de Santana

  1. Desde que um muleke de uns 90 centimetros de idade jogou um numero 1 com coca, batata, 1 chess e um nuggets de 12 na rua por nao querer comida e sim dinheiro, NUNCA mais dei um centavo para qualquer que seja a pessoa ou motivo. Quer comida? Eu pago, quer dinheiro, não tenho!

  2. Porra. Taí uma lição no comentário acima.

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