Calma

foto: Oscar Segovia

Acho que estou ficando velho. Não só achei uma boa dica a do meu pai, como coloquei em prática. Interessante que ele está ficando mais novo. Depois de abrir uma conta no MSN e Skype, a nova coqueluche dele é conversar conosco via Gtalk. Minutos antes de sair do trabalho, disse a ele que não iria de carona, mas de metrô mesmo. Para andar um pouco e dar um tempo até chegar em casa. A idéia não era prolongar a chegada por não querer estar em casa, mas meu pai disse uma coisa interessante, sobre a ida do trabalho para casa, a transição, o trajeto e um monte de coisas que esqueci. O fato é que fez sentido e lá fui eu, tentar me desligar do trabalho aos poucos, andando com vagar.

Não costumo andar com pressa, mas diminuí, mesmo assim, o passo. No meio do primeiro quarteirão já queria andar mais rápido. A gente se acostuma a um ritmo e quando muda, não sabe direito como fazer do novo jeito. Forcei-me a dar passos mais lentos e mais curtos. Fui pensando no que havia feito no trabalho, o que tinha para fazer nos outros dias e reparei nas pessoas. Algumas estranharam ver alguém andando de forma tão devagar, em meio a tanta gente andando depressa e carros acelerando até o semáforo vermelho.

O mais difícil foi no Metrô, onde todos correm. Claro que há momentos em que estamos com pressa e precisamos correr. Mas nos acostumamos a estar sempre com pressa. A necessidade de estar nos lugares suprimiu a possibilidade de aproveitarmos as idas e voltas. Como para viver intensamente a vida precisamos estar nas melhores festas, estar com as pessoas mais legais, estar nos restaurantes mais desejados, o processo de ir de um lugar ao outro se tornou apenas um mal necessário. Um incômodo na nossa vida, que não pode ser desperdiçada com coisas banais.

Reconheço que o caos no trânsito de São Paulo [e o transporte público com tantas falhas] ajuda no processo de querermos ficar o menor tempo possível em ‘tráfego’. Quem, em são consciência, curte aquela fumaceira dos caminhões e o altíssimo volume dos motores dos ônibus, motos e buzinas?

Assim como meu pai sugeriu que eu diminuísse o passo, proponho que retomemos os momentos de transição. Andarmos com mais calma para chegar em casa. Nos desligarmos aos poucos das coisas que nos preocupam e que só poderão ser resolvidas daqui 12h ou mais. Darmos ‘bom dia’ e ‘boa tarde’ aos que nos olharem assustados, e validarmos a idéia de que somos loucos, sim, mas que é assim que sobreviveremos. Pessoalmente, preciso lembrar que fazemos sentido também nas passagens e não apenas nos destinos.

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Texto publicado originalmente na coluna Miudezas, da Revista Paradoxo.

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3 Respostas para “Calma

  1. Eu sempre preferi uma boa caminhada, mas não costumo andar apressada. Sou uma boa observadora, essa cidade em que moro me dá motivos para fugir do egoísmo e pensar nos outros – que momentaneamente me inspiram – para escrever.
    Abraços.

  2. Nossa, Gabriel… genial!
    ADOREI o seu blog. Muito bom este post… também tento desacelerar o tempo todo.

    Depois dá uma olhada no meu blog, ando escrevendo muito sobre essas coisas… ando de SACO CHEIO de são paulo.

    Enfim, muito bom te conhecer! rs
    Ah, achei seu blog através do RT da Paula Manzo. Aí vi seu profile e cá estou.

    Beijos!

  3. Kátia Lucila Bueno

    Gabriel,
    Adooooro seus textos!
    Todos eles me falam ao coração e lê-los é extremamente prazeroso.
    Parabéns pela sensibilidade e obrigada por presentear-me com seus escritos e o acesso ao seu blog.
    Abraços!

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