A fantástica vida breve de Oscar Wao

O trajeto no Metrô era: [subir] Belém > Sé > Paraíso > Vila Madalena [descer]. Sempre que faço a baldeação na Sé tenho que pensar por alguns segundos no mapa de São Paulo e quase adivinhar se para a V. Madalena/Paraíso é preciso ir no sentido do Jabaquara ou do Tucuruvi. Ele, o cérebro, mandou ir pro Jabaquara. Entrei no vagão e, depois de sentar, abri o que estava lendo, “A fantástica vida breve de Oscar Wao”. Sim, é bom. O autor, Junot Díaz, ganhou um Pulitzer, “o Oscar dos livros”, diria o jornalista cultural. Mas a garantia dele ser bom não é essa, claro.

Já disseram [‘disseram’ quem? / eles, oras… / ‘eles’ quem? / você sabe] que são os livros que nos escolhem. Concordo, mas sou eu que compro, então os dois se escolheram. Quando li um tweet do @jpcuenca elogiando “…Oscar Wao”, tive a impressão de já ter ouvido falar no livro antes. Mas a primeira referência linkável no meu cérebro é essa do Twitter, então prossigamos.

Depois disso, dando uma checada da Livraria Cultura, vi o livro na parte de Mais Vendidos / Lançamentos / Destaques [escolha um] e li a contra-capa, com aspas do New York Times: “Tão original e fantástico que somente pode ser descrito como um encontro entre Mario Varga Llosa, Jornada nas Estrelas e Kanye West”. Se você não me conhece, então saiba que uma descrição dessa garante que eu vá diretamente ao caixa comprar o produto, não importando minha situação financeira. A pegadinha é que estou aprendendo a controlar meus impulsos [quando acho necessário, claro] e não comprei o livro. Pedi à minha esposa para comprá-lo de aniversário para mim [o fato de não comprá-lo não quer dizer que eu abriria mão de tê-lo ;-]

Depois de ler, posso afirmar: tem muito mais de Star Wars do que de Kanye West. E de Vargas Llosa, tem a narrativa, claro. Oscar é um guri fissurado em tudo que já fomos e somos fissurados. E é um loser, óbvio. Caso você não saiba, ser nerd nos anos 90 não era legal. Ficava longe de ser bacana como Sheldon/Leonard, o pessoal de CSI, Peter Parker ou Clark Kent [OK, Clark Kent é um mala] o Dr. Manhattan. Ou o Batman que, de certa forma, é um nerd também. Falando nisso, Junot Díaz considera nerd até Che Guevara e cia. O cara mandou bem na construção dos personagens e da ambientação. Merece o Pulitzer que recebeu.

Eis que tinha o livro em mãos e quando a moça do falante do vagão anunciou, “Estação Liberdade”, pensei, Estou no sentido contrário, e todo o resto aconteceu em questão de 8 segundos, no máximo. Levantei, saí do vagão, meu cérebro processou que a possibilidade d’eu ter errado em achar que estava no sentido errado era grande, fui andando lado a lado ao trem, bati o olho no mapinha que fica em cima das portas dos vagões e vi que estava certo em achar que tinha errado em achar que estava no sentido errado. Entrei no vagão seguinte e pude continuar minha leitura, dessa vez me preocupando apenas em não perder a estação Paraíso.

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Texto publicado originalmente no Judão.

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