Tristão e Isolda

(…) o livro constitui parte prévia da nossa memória. É um livro tão vasto e tão importante que nem é preciso lê-lo
Jorge Luis Borges

Essa declaração de Borges diz respeito ao livro “As Mil e Uma Noites”. Se você parar pra pensar, faz sentido. Mesmo com vontade de lê-lo, é possível entender toda a sua importância, todo o seu mundo, mitologia e conceito sem mesmo nunca ter aberto uma página sequer, de qualquer exemplar desse livro. Não há uma autoria definida dessas histórias, que foram compiladas e replicadas de manuscrito em manuscrito.

Há certas coisas na vida semelhantes à não-necessidade de ler as histórias de Sherazade. Uma delas é o amor; a outra, o medo. Quando juntos então, fazem coisas inimagináveis. Para o bem ou para o mal. E para o nada também. Além disso, são capazes de nos fazer sonhar e temer o que, principalmente, nunca experimentamos.

Outra história que ouso dar uma de Borges e dizer que, de tão importante, não é necessário lê-la, é a de Romeu e Julieta. A miséria, desgraça e tragédia humana, cercadas por um amor tão intenso que beira à loucura, não precisa de texto. Faz parte da nossa memória prévia de vida, se não, da memória futura. Mesmo que não tenhamos vivido aquilo, sentimos algo parecido em nossas almas. E, contra os sentimentos da alma, que razão consegue valer-se da razão?

Tristão e Isolda, por exemplo, nunca li. Mas sei que a história lembra um pouco a de Romeu e Julieta. No entanto, é mais uma que retrata um dos maiores medos do Homem: morrer sozinho e sem ninguém que corresponda seu amor. Nossa alma se desespera e angustia, ignorando todos os argumentos da razão, por mais provas e fatos que ela utilize para provar que se as coisas correrem do jeito que estão, poderemos partir com a certeza de que somos amados. Porém, mesmo não tendo lido Tristão e Isolda [ou Romeu e Julieta], nossos corações temem o que nossa razão desconhece: os medos da alma, que não aceitam conversa. Não têm olhos, ouvidos, tampouco bom-senso. Só nos resta tentar conviver com eles.
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foto: Oscar Segovia

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Uma resposta para “Tristão e Isolda

  1. Engraçado que um dos meus maiores medos é outro: morrer sozinho e sem jamais ter correrpondido o amor de ninguém. Acho que não li essas histórias o bastante, não aprendi a amar.

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