Só falta o apito

De novo, fui ao Rio de Janeiro. Lembrava que a cidade ficava vazia no Carnaval, reiterado pelos amigos cariocas, confirmando a ‘teoria’. Fui enganado, mas sem problema. É difícil me estressar no Rio. Até mesmo com o trânsito caótico, pois passei a dirigir como eles. Não desrespeito ninguém, mas me finjo de louco. É divertido, mas os passageiros geralmente passam medo, por não saberem que é tudo calculado.

Dessa última ida, entendi o motivo do tráfico e milícias serem o ‘poder paralelo’. É muito fácil alguém assumir algo que o governo deveria estar fazendo. Cito dois exemplos, da qual eu mesmo exerci o ‘poder paralelo’.

Tínhamos ido à Prainha, local disputado pelos banhistas e moradores da Barra, além dos turistas, quando em alta temporada. O Carnaval é uma dessas épocas, apesar de ainda não entender o porquê d’eu ter achado que a cidade ficava vazia. Um dia descubro como surgiu esse boato no meu cérebro. Enfim, não havia mais vagas no estacionamento da Prainha [devem caber uns 15 carros ali] e o pessoal começou a estacionar na estradinha que liga a praia da Macumba ao ‘complexo’ Prainha-Grumari. O caos no trânsito: carros parados dos dois lados da via e a descoberta de que todo carro multado leva um adesivo simpático no vidro do motorista: “Multado – 16/02”. O pessoal que chegava e arranjava uma vaga, simplesmente arrancava o adesivo do carro vizinho e colava em seu próprio vidro, claro. Quando o guarda da CET passasse por ali, não multaria um carro que já foi multado, concorda?

Mas o momento em que me envolvi, pra valer, em ser um agente do poder paralelo, foi quando uma picape dessas grandes tentava fazer um retorno no meio da via. Imagine: carros estacionados nos dois lados, mais a fila de ir e de vir. Ou seja, em um espaço para no máximo três carros, havia quatro, mais esse atravessado. O cara já estava errado e o Monza ao lado dele não tinha como dar ré e abrir espaço para a manobra. O que fiz? Parei o pessoal da pista contrária, mandei o Monza passar, a picape fez a manobra errada, me agradeceu e o trânsito foi liberado. Por mim. Claro, teve quem buzinasse e xingasse, mas eles só conseguiram passar do meu lado, me ameaçando, porque eu havia liberado o tráfego. Legal, né?

2) No trânsito, de novo. Incrível como falta cordialidade nas ruas, seja no Rio, seja em São Paulo. Vamos lá. Foi na rua lateral da rodoviária. Vindo da avenida, é uma entrada de mão única, duas pistas. No quarteirão seguinte, torna-se uma rua de duas mãos, sendo que a rua à direita para quem veio da mão única é onde todos os ônibus do Rio pareciam querer entrar. O que houve? Os ônibus vieram na contramão da outra rua e quem precisava prosseguir nela, não conseguia. Uma Kombi, da prefeitura, abriu caminho entre os ônibus e me embrenhei, junto com ela. Acontece que o povo atrás da gente não quis esperar os ônibus na contramão passarem – claro, afinal, eles estavam errados, não é?, pois então que esperassem – e travaram a passagem deles. Resultado: ônibus parados à nossa frente. Por causa deles não conseguíamos andar e liberar a passagem dos ônibus que fechavam nosso caminho. Literamente, um nó. Por um instante, achei que passaria o resto da minha vida ali. Mas minha esposa disse que isso seria praticamente impossível. Além disso, me lembrei da Prainha. Desci do carro e ajudei um senhor, também transtornado, a organizar o tráfego. Fomos até o último carro, que prendia o primeiro ônibus. “Moço, sei que o ônibus está errado, mas por favor, tem um baita espaço atrás de você. Dá uma rezinha, que libera todo o trânsito”.

Voltei para o carro imaginando que se um paulista zé mané como eu conseguiu dar um jeito em uma situação que poderia ser facilmente resolvida com fiscalização da prefeitura, que dirá nos assuntos maiores, como os problemas que ocorrem nas comunidades do Rio. Ao mesmo tempo, bateu aquela esperança de que nem tudo está perdido. Com uma simples decisão de ficar em pé no meio da rua e tentar organizar o trânsito, foi possível amenizar uma situação de stress. Além do mais, se não der certo como escritor/jornalista, já tenho experiência como guarda de trânsito. Só falta o apito.


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Uma resposta para “Só falta o apito

  1. Algumas vezes pequenos detalhes tipo se colocar na situação do outro e um pouco de boa vontade poderiam fazer toda a diferença. Eu acho que bastaria mais algumas pessoas com essa atitude.

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