Terapia em txt

Ter uma coluna fixa, seja em uma revista, jornal ou site, não é só maravilha, como vocês podem pensar. Primeiro, você tem que ter algo bacana para falar toda semana. Às vezes parece fácil, mas não é. Há dias em que por mais coisas que o mundo produza, nada parece ser interessante o suficiente. Por isso, tenho um texto preparado sobre ‘o branco’. Ainda não é esse, apesar de parecer, reconheço.

Esse aqui é mais uma junção de coisas que completam um parágrafo, mas não necessariamente um texto todo. A primeira delas é o fato de se ter um local onde as pessoas, de fato, te lêem. O que você escreve acaba sendo levado em consideração. As pessoas se importam, ainda mais quando você escreve como eu, sobre coisas do dia a dia, sobre as pessoas com quem convive e conversa. Tem gente que gosta de ser citada aqui e até me cobra isso.

A minha cunhada, por exemplo, comentou no último texto, que eu não mencionei ter ficado hospedado na casa dela, na última ida ao Rio. Querida irmã da minha esposa [evito citar nomes], aquilo foi estratégico, para minha tia não ficar chateada comigo por não ter ligado para ela. (Oi, tia! Te amo!). Aí a coluna serve também para pedir desculpas públicas. Seja pra tia, pra esposa ou pro seu pai, quando você o cita e ‘esquece’ que ele não curte muito isso. Afinal, assim como existem os que gostam que eu fale sobre eles aqui, há os que não gostam. Meu pai sempre fica receoso, e com razão, afinal, é possível destrinchar a vida de alguém, pela internet. E isso é o máximo que falarei dele.

Mas mesmo quem não liga muito de ser citado aqui, começa a ficar preocupado. Já aconteceu algumas vezes. Alguém faz um comentário interessante, pego o celular para anotar alguma coisa e a pessoa, claro, desconfia que eu esteja escrevendo sobre o que ela falou. (Dica: na maioria das vezes é isso mesmo). As pessoas começam a pensar mais sobre o que vão falar, o que me faz muitas vezes ficar sem assunto por aqui. Por favor, não parem de conversar perto de mim. Se possível, articulem bem as sílabas, para eu não perder o contexto do papo.

O legal é poder desmascarar algumas coisas por aqui também. Exemplo: ontem descobri que uma música que meus primos de Florianópolis cantavam quando éramos crianças, na verdade, é de uma banda chamada Little Quail. A música: “1, 2, 3, 4“. Eu ficaria revoltado, mas a verdade é que isso me deixou com a consciência mais tranquila.

Explico: na mesma época em que eu e meu irmão ouvimos esses primos cantando “1, 2, 3, 4”, eles também nos mostraram “Minha Bicicleta Azul”. Era assim: “Minha bicicleta azul, I love you, minha bicicleta azul (2x). Quando eu era pequenininho, eu tinha uma bicicleta, ela não era rosa e nem amarela (ela era!) Minha bicicleta azul, I love you, minha bicicleta azul”. Era isso a música. Voltando das férias, cantei para o pessoal do colégio. Não faço ideia do motivo, mas é fato que fez sucesso. Fiquei conhecido como “o garoto da bicicleta azul”. As meninas vinham pedir para eu cantar a música e, quando terminava, ouvia um suspiro “ooohhhh” no final. Cara, como é que eu poderia desmentir e, depois de tanta fama, dizer que a música não era minha? Se não me engano, isso foi na 5ª série. Meu reinado durou até a 8 ª, quando meu irmão foi para a 5ª e passamos a dividir o mesmo pátio, na hora do recreio.

Na primeira ocasião que mencionaram a música e disseram “Você que é o irmão do garoto da bicicleta azul?”, a resposta foi: “Mas essa música não é dele. É de uns primos nossos, de Florianópolis”. Não o culpo. Ele não tinha saboreado o que era ser uma sub-celebridade do colégio e apenas disse a verdade, sem maldade. O fato é que durante anos fiquei com esse peso na consciência, por ter ‘roubado’ a música deles. Porém, depois de descobrir que outro sucesso dos meus primos, “1, 2, 3, 4”, não foi composto por eles, consegui deixar pra lá. O impulso foi ficar indignado, até lembrar que eu havia feito a mesma coisa.

Claro, fui no Google ver se “Minha Bicicleta Azul” não era também um roubo, mas descobri ser deles. Mesmo assim, devo meu sucesso no ginásio ao Dé e ao Rafa, que hoje é músico profissional e compõe bem melhor do que quando éramos garotos.

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Texto publicado originalmente na Revista Paradoxo.

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Uma resposta para “Terapia em txt

  1. Sabe, é meu sonho trabalhar assim, como cronista, legítima, com coluna em jornal ou revista, posteriormente ter minhas crônicas reunidas em uma antologia (ando lendo tanto Rubem Braga…)

    Mas às vezes prefiro ser amadoira acho bom o desprendimento das coisas. A ausência de críticas (destrutivas) também.

    Abraços.

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