Os humildes de espírito

Fiquei pensando no Seu Sebastião, do post anterior, e veio o que você lê abaixo:

Ele tem 59 anos e trabalha distribuindo folhetos e panfletos há quatro. Já fez de tudo na vida, menos roubar. Apesar do olhar cansado, mantinha um sorriso, um segredo que não ousei perguntar. O fato de ter me contado que dos cinco filhos só tinha dois, fez com que eu refreasse minha curiosidade, apesar dela ser enorme. Seu Sebastião não tinha um grande ensinamento para me passar ou uma visão de mundo que mudasse meus olhos. Justamente por isso mexeu tanto comigo.

Desde adolescente acredito que as pessoas simples e humildes de espírito têm uma sabedoria superior aos demais. Sempre valorizei isso, enquanto olhava com certo desprezo o ensino sistemático e formal, oferecido por escolas públicas e particulares, mesmo sendo formado por esse tipo de ensino. Romantizei essa visão por muito tempo, visão essa que segrega e dicotomiza demais as pessoas. O fato é que há a possibilidade de beleza e lição a ser aprendida com todos. Mesmo que não tenham uma lição a nos ensinar.

Com Seu Sebastião, fiquei intrigado nos olhos cansados. Em outra foto, a pessoa não me disse nada. É um senhor que todo dia encontro uma esquina antes de chegar ao trabalho, sentado ou na guia ou debaixo de uma marquise, martelando pedaços de metal e que me respondeu trabalhar com seu “carroção”, enquanto apontava para ele, cheio de papelão. Não tinha lição ali, mas aquela vida era tão importante quanto a do Seu Sebastião, a minha ou a sua.

A verdade é que a gente valoriza as pessoas e quantifica a importância delas. Tenho aprendido que qualquer vida é valiosa e valiosa igual. Reconheço que algumas vidas façam mais ‘diferença’ do que outras, como Gandhi, Mandela ou Martin Luther King. Mas sabe qual foi a grande diferença que eles fizeram? Consideraram todos importantes da mesma forma. Reconheciam o valor individual de cada um, como ser humano, fosse a instrução que tivesse, o quanto possuísse na conta corrente ou o quanto tivesse estudado, onde tivesse estudado, se tivesse estudado.

Hoje, olho para Seu Sebastião sem esperar que venha uma palavra de sabedoria divinal. Converso com todas as pessoas sem esperar que sejam fabulosas ou sem esperar que me decepcionem. A graça está nessa surpresa, de não saber o que virá das pessoas, sem precisar esperar que digam o que achamos que dirá. Não espero nada. Só espero poder me surpreender constantemente com o ser humano.

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2 Respostas para “Os humildes de espírito

  1. Muito bom o texto… fala muito do que penso tb.

    Bem legal ver as coisas assim e dividir para que de repente outros vejam, ou se questionem porque não veem.

  2. esse texto, sobre a igualdade, me fez pensar nas últimas dezenas de entrevistas de emprego, ojnde justamente a intenção era empregar alguém com alguma deficiência. Mas lendo esse texto, noto o quão discriminante é o RH de uma empresa. na verdade buscam pessoas com a menor deficiência possível, assim o cara vai dar menos trabalho, de preferência alguém que não tenha o dedinho do pé. Depois me vem com essa de “programa de diversidade” Ah, vai cagar. #hipócritas

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