Anônimo

– Posso fazer uma foto sua?
– HEIN?! AHN??
– Opa, estou tirando foto do pessoal do bairro… posso fazer uma sua?

– Fica tranquilo, não é pra nenhum jornal nem revista. É só pra mim mesmo.
– Sei não, hein… acho que não.

Chega um amigo dele
– Aí? Tá fazendo o que aqui??
Percebo que ele é cego de um olho e não enxerga muito bem com o outro
– Só tirando uma foto do pessoal do bairro.
– Cara, se eu souber que essa foto tu vendeu ou publicou em algum lugar, O CIRCO VAI PEGAR FOGO!! EU VOU TACAR FOGO EM TUDO!!
– Não, não… fica tranquilo. Não quero nada pegando fogo. Não vou tirar uma foto sua, só queria uma dele.
– Não tira foto minha também não!
– OK, beleza…

Começo a ir embora
– Ei, pera aí! (risos) peraí! (risos), diz o que não pretende tacar fogo em nada.
– Fala.
– Então, um real… me dá um real que eu deixo você tirar uma foto minha.
– Um real? Fechado.

Me preparo para fazer a foto
– Dois reais, né? Dois reais pela foto.
– Dois, amigo? Não era um?!
– Não, não… dois reais. Dois reais e eu deixo fazer a foto.
– OK… dois reais

(o do retrato tá que não se contém de alegria dos dois reais que vai ganhar. Carol me ajuda a segurar a mochila, capa da câmera, capinha da lente)
– Olha aí, amigo… Dois reais. Obrigado!

O amigo dele, mesmo cego de um olho e enxergando mal com o outro, fica me fitando desconfiado, de longe, até me perder de vista na avenida.

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2 Respostas para “Anônimo

  1. Se não tivesse todo o contexto, talvez a foto não tivesse tanto sentido, pelo menos, não seria tão direcionada e a interpretação ficaria por conta de quem vê, da bagagem dele, do conhecimento que ele tem de fotografia, ou do fotógrafo, ou talvez do momento que vive.

    Percebi que a arte faz isso, quando fui ver uma exposição de video do meu irmão no MIS (Wagner Malta Tavares) e ele me intrigou, deixou a mim e os demais espectadores, esperando, parados, olhando para um cenário praticamente estático, de uma casa no topo de uma colina. Praticamente, porque cortinas se mexiam, saindo das janelas velhas da casa igualmente velha.

    A cena se passa num fim de tarde, até o sol se por e ficar tudo num breu, ao não ser pelas cortinas novamente, mas que dessa vez, além de chamarem atenção pelo movimento, se destoavam no escuro, pela iluminação azul de dentro da casa que só era visível por fora, projetada nas cortinas. Isso durou 15 minutos, alguns minutos a mais que minha análise.

    O que ele queria mostrar? O que os outros entenderam daquilo? O que deviam entender? Deviam entender?

    Não sei, mas aquilo ficou na cabeça e tem voltado várias vezes, como agora.

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