Numa banca próxima a você

O guri sabia o dia exato de saírem seus gibis favoritos. Havia desistido de assiná-los, já que chegavam antes às bancas. Andava pelo menos 2km até chegar na “especializada” mais próxima. Nos dias seguintes era inútil tentar qualquer conversa. Até terminar todas as edições compradas, todo seu tempo livre era olhando para baixo, segurando suas revistas.

No ônibus, onde as pessoas estão paradas próximas a ele, mesmo em movimento, é quando abaixa mais ainda o gibi, para esconder a capa que mostra marmanjos vestidos com roupas coloridas. A verdade é que apenas eles, os gibis, são capazes de tirá-lo da realidade.

Não veja como algo ruim ele querer alienar-se, um pouco, do mundo. Sabe quando as pessoas vão ao cinema, para “esquecer da vida” e tal? Pois é, com ele não rola. Fica reparando nos erros de continuidade, na direção, falhas do roteiro e afins. Qualquer outro produto cultural que consuma, é a mesma coisa. Algumas vezes até parece funcionar, com música, por exemplo, mas apenas por pouco tempo. Após alguns minutos passa a reparar nos riffs das guitarras, na linha do baixo e nas viradas da bateria.

Mas os gibis não. Eles sempre podem fazê-lo acreditar, por alguns instantes, que os mutantes correm perigo, que a tia May vai descobrir a identidade secreta do sobrinho e que o Hal Jordan vai acabar com o Sinestro. Seu cérebro desliga as análises críticas e simplesmente relaxa. Talvez tenha sido uma necessidade biológica dele, para ter algum descanso que não fosse enquanto estivesse dormindo.

Lendo um gibi, ele sente o perfume doce que passa. “Estranho, não lembro da Jean Grey ter esse cheiro”. Continua com os olhos fixos nas páginas da revista e sente algo macio tocar sua pele. Após alguns segundos de surpresa e de se sentir desnorteado, percebe que é outra pele tocando a sua e que é dela que vem aquele cheiro. Sim, claro. ELA. A única que consegue fazê-lo esquecer, por alguns segundos, de seus gibis. Tempo suficiente para ele fitá-lá e saber que aquele momento é melhor do que qualquer roteiro do Michael Bendis e mais real do que qualquer desenho do Alex Ross.

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Texto publicado originalmente no Judão.

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