Chega

Eu odeio Power Point. O programa, os slides, os efeitos e tudo o que nele há. Até reconheço que há pessoas que conseguem utilizá-lo com parcimônia e sabedoria. Há, inclusive, empresas que cobram para te entregar um ppt bacana, o que acho muito útil. Ouso dizer que o Power Point só não perde para o Excel, alvo master da minha revolta tecnológica. Porém, o texto de hoje é para admitir que um slideshow de Power Point já me fez repensar algumas coisas na minha vida.

Era daquele clássico, cheio de fotos tocantes, um texto em Comic Sans e uma música de fundo, pra dar o clima. Não vou reproduzir o texto aqui na íntegra, mas ele começava com a cena de um homem separando a melhor roupa e o melhor perfume da esposa. Fazia aquilo quase como um ato sagrado.  O texto então contava no que o homem estava pensando. A esposa havia falecido e o marido ponderava sobre as vezes que ela deixou de usar aquele vestido, já que não era uma ocasião especial. Ou quando ela não colocava o melhor perfume que tinha, guardando para um dia que fosse especial.

Já escrevi a respeito dos “pleasure-delayers”, os retardadores de prazer. Acho que vai além. Esperamos sempre uma ocasião especial para estrear aquela roupa, sapato ou perfume. Esperamos que os momentos sejam especiais para, daí sim, desfrutarmos deles como merecem. Esperamos que algo fantástico seja proporcionado, para podermos admirar a maravilha que aquilo é.

Vivemos de forma passiva, esperando que os momentos especiais aconteçam ao nosso redor e que sejamos convidados para eles. Chega. Chega de esperar o maravilhoso acontecer. Chega de esperar o especial te chamar pra sair. Use seu melhor perfume para ir à padaria, se assim lhe der vontade. Vai no supermercado e queria usar aquela camisa que gosta? Use! De verdade, qual o problema em fazer isso?

(In)felizmente foi necessário que eu recebesse (abrisse e lesse) uma apresentação de Power Point para pensar nisso. Não importa se a história ali contada era verdadeira ou apenas um conto. A esposa daquele homem havia morrido sem usar um vestido que adorava e que comprou com tanto carinho. Pode ser que tenha deixado de ouvir um elogio de seu marido, em casa, por estar com um cheiro tão gostoso.

Não temos controle dos nossos dias, como serão ou quando serão. A única possibilidade de mudarmos alguma coisa é com relação a como encaramos cada um deles. Podemos viver esperando que os dias especiais cheguem ou podemos decidir quais deles serão especiais, simplesmente mudando a forma como enxergamos nossa vida.

Cada dia que acordo ao lado da minha esposa é especial. Cada dia que converso com meus pais, meu irmão e meus amigos é especial. Cada dia que o sol se põe é especial. Por isso, farei também especial cada dia que ele nascer. Afinal, é a única coisa que posso fazer.

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Texto publicado na Paradoxo.

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