Like this

Eu poderia muito bem usar uma câmera digital. Mais leve, prática e ágil. É só tirar a foto e no mesmo minuto saber se ficou boa ou se precisará de um novo clique. Mas não. Escolhi carregar uma Yashica FX3 de meio quilo na mochila, além de um headphone grande, que também pesa um pouco. Individualmente não são tão pesados, mas uma câmera aqui, um fone ali, um iPod acolá e a mochila vazia já fica cheia.

Um amigo aqui, outro ali e de repente você não consegue mais dar conta de estar com os que gosta. Facebook, Twitter, Orkut, MSN e Gtalk parecem facilitar essa manutenção, que acaba sendo pior. Não quero (e não vou) assumir um discurso defensor ou acusador da internet e tecnologia. Ela aproxima quem está longe, mas também distancia quem está próximo. Ficamos acomodados em clicar “Like this” no status do amigo no Facebook e pronto. Mais um contato mantido.

Sacar a câmera da mochila, tirar a capa de couro dela, tirar a tampinha, medir a luz e acertar o foco. São 30 segundos para fazer a foto, além de vencer a vergonha de, no meio da rua, parar alguém e perguntar se pode tirar uma foto dela. Não, não vai sair em nenhum lugar. É… só pra mim mesmo. Tem certeza? Entendi. Olha, não vai sair mesmo em nenhum lugar, são só fotos do pessoal do bairro que estou fazendo. OK. Só olha pra cá então. Massa, legal. Ih, não dá pra saber… não sei se ficou boa.

Só dá pra saber quando o filme é revelado. Para isso, espera-se o filme terminar, claro. É preciso ter paciência. Quer dizer, praticar a paciência, pois não a possuo. Para o filme terminar mais rápido, é preciso fotografar mais. Vencer mais vergonha de sacar a câmera no meio da avenida. É ir além do “Like this” da câmera digital, que cabe escondida no bolso, pronto, olha a foto, ali, legal e dedicar-se a se expor com aquele trambolho na frente do rosto, todo mundo te olhando, te vendo. Mais do que expor um filme à luz e ao assunto da imagem, fotografar é sair, falar, interagir e expor a si próprio.

O filme é só uma desculpa para ouvir histórias e emprestar a alma das pessoas que me cruzam. Não ligo se minha mochila ficar mais pesada. Talvez a ideia seja essa.

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2 Respostas para “Like this

  1. “A capacidade que têm as fotografias de evocar em vez de contar, de sugerir em vez de explicar”

  2. Pingback: Achados na web 88 » Ladybug Brasil - Sobrevôos, descobertas, achados.

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