Varal

Daqui da janela dá pra ver a cobertura de um prédio entre a Vila Madalena e Pinheiros. Na verdade, é menos cobertura do que um apartamento no último andar, pois não tem nada de chique. Um lençol azul e algumas roupas, balançando com o vento frio do início do fim da tarde em São Paulo, e o sol ainda batendo nelas.

Quando questionado sobre o que espero (e busco) da minha vida, se pudesse mostrar a cena, era isso que responderia. Não é necessariamente uma resposta concreta, que deixará a pessoa satisfeita com sua dúvida resolvida, mas também não tenho procurado respostas concretas. Repare no sol por volta das 17h30, amigos tomando um café, o gari varrendo a rua e, talvez, isso traduza um pouco: simplicidade.

Quero uma vida mais simples. Talvez quisesse ser aquela roupa estendida no varal, apenas com a função de ficar seca durante o dia e, se não fosse possível, ficar mais um pouco ali no dia seguinte. A questão não é a falta de percalços e tribulações. A roupa vai pra rua, é surrada, suada, rasgada, amassada e suja. Quando chega em casa, fica com outras roupas na mesma situação, quase desprezadas, escondidas em um cesto e só saem dali para serem afogadas e batidas em um tanque ou máquina de lavar. São torcidas até darem tudo que têm de si, até a última gota de seu respiro ser extraída e, só então, vão para o varal, onde conseguem se esticar, tomar um sol e serem felizes com o vento das tardes frias de São Paulo.

Uma vida sem dificuldades não é vida que vale a pena ser vivida. Seria um passeio, um playground, uma bolha e uma mentira, seria qualquer coisa, mas não seria vida. Porém, mesmo assim, com tantos agouros, acredito na existência de uma vida mais simples, menos frenética e neurótica, menos estressante e massacrante. É possível minimizar algumas das angústias e dores da alma. Ou não, só é possível trocar algumas dores da alma por outras, mas ainda assim quero escolher quais serão. “Basta a cada dia o seu próprio mal”. A única certeza é que o mal virá, então só me resta diminuir os que conseguir evitar e ser um pouco mais roupa ao varal.

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foto: Daigo Oliva

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6 Respostas para “Varal

  1. Oi. Obrigada por esse texto. Ele reascendeu a minha esperança de que as pessoas simples ainda estão por aí. Olhando de suas sacadas o sol indo embora, o sol batendo no lençol azul.

  2. Lindo, mas lindo mesmo.

    Tenho tentado desesperadamente (ó a ansiedade me traindo!) ser adepta do simples. Na prática, na vida cotidiana, consigo bem, evito comportamentos que me dariam trabalho desnecessário, tipo ser vaidosa, me preocupar em ostentar, ser sociável com quem não gosto.

    Mas psicologicamente meu plano é um fracasso, porque não tem ninguém mais complicado pra se relacionar com gente. : /

    Oi, faço terapia nos comentários dos posts alheios.

    Mais uma vez, parabéns pelo post.
    Beijo!

  3. lindo gá…não tenho recebido seus posts por e-mail..o q aconteceu?

  4. Engraçado como é fácil cair no velho vício de complicar as coisas, de dar muita importância ao que não importa, de achar que é preciso ter/ver/conhecer tudo…

    Acho que viver de um jeito simples é meio que uma briga eterna do que a gente é com o que a gente quer ser…

  5. Eu achava isso impossível, mas te digo que eu consegui ter uma vida mais simples.

    Se eu consigo, todo mundo consegue.

    A grande questão é: Será que você consegue tentar?

    Orgulho de vc meu amigo.

    Beijo

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