Manias

O Inagaki compartilhou um post do jornalista Michel Laub, de uma série com 100 escritores brasileiros que ele fez, contando suas manias para escrever. Já tinha batido o olho, mas não tinha dado muita bola. Nos seis meses de mestrado que fiz em Letras, descobri que há uma linha de pensamento que acredita na não necessidade de se conhecer a vida do autor para avaliar sua obra. Às vezes acho isso, às vezes não. Com a leitura de feeds quase zerada, dei o braço a torcer fui dar uma olhada no que o João Paulo Cuenca tinha dito (todos os trechos estão na íntegra, tirados do blog do Michel Laub):

João Paulo Cuenca, autor de O único final feliz para a história de amor é um acidente – “Adoraria listar minhas anedóticas manias de escritor, mas não creio que existam. Eu simplesmente escrevo com o que (es)tiver à mão, normalmente computadores – ou canetas de bico fino e tinta preta sobre caderninhos franceses com papel pólen bold, que sempre levo no bolso. Costumo ouvir música, e posso ouvir os mesmos cinco minutos por horas de maníaca repetição, conforme o estado mental ou ritmo que desejar imprimir ao texto – Mahler ou Radiohead, Keith Jarrett ou Sufjan Stevens etc.  Não esquecer do Philip Glass, que também é ótimo para escrever.  Quando retomo um capítulo num romance, costumo ler o texto desde o início. No final, já li o livro umas 3 mil vezes – não que termine completamente satisfeito. No mais, acho que escrevo a maior parte do tempo longe do papel e dentro da minha cabeça, enquanto durmo, caminho, viajo, vou ao cinema, ao museu etc. – e isso faz de qualquer ritual ligado ao ato de escrever algo inteiramente acessório e pouco relevante. Até porque não há nada menos lúdico do que o ato de escrever prosa – acordo todos os dias querendo ser um pintor ou um músico de jazz.”

* Acabei identificando-me um pouco com ele, pela questão de que música ouvir, sempre ter algo à mão para poder anotar alguma ideia e de acordar todos os dias querendo ser um pintor, músico, fotógrafo ou alguma outra coisa. Como estava sem sono, fui vendo as manias dos outros escritores e separei abaixo alguns que achei mais interessantes:

Moacyr Scliar, autor de Manual da paixão solitária – “Em termos de escrever, o meu método, ou mania, ou superstição consiste em não ter método, ou mania, ou superstição. Desenvolvi minha atividade literária paralelamente a uma intensa carreira médica (primeiro clínica, depois em saúde pública), escrevia quando podia, quando dava tempo. E isso podia acontecer em qualquer lugar: numa lanchonete, esperando a comida, num hotel, no aeroporto (o laptop ajudou muito). Não preciso de silencio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais – só preciso de um teclado. E ah, sim, de ideias (mas diante do teclado as ideias surgem).”

Ronaldo Bressane, autor de Céu de lúcifer – “Para escrever o meu novo romance, comprei uma cortina: percebi que a luminosidade e a vista do nono andar me dispersavam. Outra coisa que me atrapalha demais é a internet, então corto a conexão. Pela primeira vez na vida, tenho preferido as manhãs às madrugadas. Alterno café e coca-cola com gelo. E a cada dia uso um dos chapéus da minha coleção. Me dá a impressão de ser outra pessoa. É meio bobo, mas tem funcionado.”

André Sant’Anna, autor de O paraíso é bem bacana – “O meu problema na hora de escrever é arrumar uma desculpa para adiar a hora de começar a escrever. Antes, eu fumava uns cigarros – ‘só um cigarrinho antes de começar’ –, aí as idéias iam fluindo. Ou: ‘Vou tomar uma lá na padaria pra botar as idéias em ordem’. Felizmente, parei de fumar. Infelizmente, fui obrigado a parar de beber. Então, tenho assistir às piores porcarias na televisão, antes de ir para o computador.”

Cintia Moscovich, autora de Por que sou gorda, mamãe? – “Basicamente, não consigo escrever com nenhuma peça de roupa me apertando. Nem com barulho, uma creche se mudou para a casa ao lado da minha e tenho vivido o inferno. Mas, no mais, eu tenho alguns hábitos, sim, que aplico depois das cinco e meia da tarde, quando o raio da creche fecha. Pode parecer engraçado, e de fato é, mas o ambiente em  que estou tem que estar agradável, nem frio nem calor, nada que me tire o foco de concentração. Sempre tenho um copo de água à mão. Quando sinto os olhos cansados, paro de escrever e tomo café. Quando a coisa fica preta, que nada me sai, faço uma dobradinha poderosa, café e chocolate. O café tem de ser recém-passado e o chocolate pode ser substituído por algum doce, importa é o açúcar. Fico na boa, beleza de doping engordativo, até me ocorrem idéias. O melhor de tudo é quando consigo andar de bicicleta ou fazer ginástica antes de escrever. Banho de endorfina e outros hormônios ajudam a relaxar e a pensar. Quando estou no desespero, coloco perto de mim um óculos que pertenceu a meu pai. Uma muleta afetiva das boas. Recomendo.”

EDIÇÃO

* Outra coisa que me identifiquei. Sou novo, na tentativa de escrever mais ainda, mas descobri uma das coisas que mais gosto de fazer: editar textos. Os preferidos são os meus, claro, pois os conheço e conduzo-os para onde quiser. Gosto de editar textos variados, quando bem escritos e interessantes. Nada que eu precise reconstruir. Imagine um carro que foi lavado e só precisa de uma cera aqui, uma polida ali e passar um pano para tirar a umidade. Gosto de refinar textos já elaborados. Os meus, gosto pois sei o que estava pensando quando os concebi e posso sempre acrescentar algo. Sou escravo do deadline, já que, assim como a Ivana, poderia editá-los para sempre, sem nunca finalizá-los.

Ivana Arruda Leite, autora de Alameda Santos – “Pra falar a verdade, eu detesto escrever. O meu barato é reescrever, mexer no que já está escrito. O começo de um livro é sempre um sacrifício sem fim. Até porque eu sou do tipo que já tem a história pronta na cabeça antes de escrevê-la. Daí a preguiça. Pra eu me obrigar a ficar umas horinhas na frente do computador é só na base do prêmio e castigo. Eu fico me prometendo coisas. Se eu escrever mais uma hora, eu posso ficar duas no twitter. Ou jogando no computador. Se eu não escrever um capítulo hoje, eu não vou poder sair pra beber. Nesta fase, eu só escrevo de manhã e no meu trabalho. Trabalho de prisioneiro mesmo. Eu só relaxo depois da primeira versão concluída. Aí sim o prazer da escrita aparece e eu escrevo freneticamente de dia, de noite, em qualquer lugar. Se o editor não arranca o livro da minha mão eu mexo nele pro resto da vida.”

Sérgio Rodrigues, autor de Elza, a garota – “Sou avesso a superstições e rituais. Escrevo sempre no computador, Word, Times New Roman, corpo 12, mas isso não tem nada de mais. O que tento fazer é criar uma atmosfera confortável, tipo bermuda-e-camiseta ou bermuda só, e de distração mínima – o que significa basicamente deixar o telefone na secretária eletrônica e resistir à tentação de conferir emails e navegar na internet. Já tive fases de escrever só noite adentro, depois que a casa inteira dormia, e em nome de um certo espírito dionisíaco ficar bebendo uísque ou, nas raras ocasiões em que o inverno carioca merecia este nome, conhaque (ainda acho o conhaque uma bebida profundamente literária, não me pergunte por quê). Mas ultimamente tenho virado cada vez mais um trabalhador diurno e sóbrio. Seja como for, escrever é quase sempre um trabalho meio doloroso. Gosto mesmo é do que vem depois: editar o material bruto, cortar, montar os pedaços em outra ordem, preencher lacunas. Isso é tão prazeroso e envolvente que nessa hora nem faz diferença se o telefone toca ou os emails pipocam.”

MANHÃ

* Sempre fui um pouco cético para dicas sobre como escrever. Não digo sobre prática, treino ou técnicas, mas não acho que exista fórmula ou segredo. Porém, gostei de uma coisa que vi em mais de um depoimento: o fato de escrever pela manhã pode ajudar. Por estar com a cabeça ainda “vazia” das coisas cotidianas, porém”cheia” e fresca dos sonhos e do mundo onírico, talvez seja uma boa dica para quando se precisa alguma coisa de ficção, ou de elementos um pouco mais lúdicos. Vale a pena o teste.

João Gilberto Noll, autor de Acenos e afagos – “Gosto de escrever de manhã cedo. Me parece que é  meu melhor impulso venha desse horário. É a cabeça mais vazia,  muito mais propícia para um arranque em direção a um certo inconsciente.”

Fabrício Corsaletti, autor de Esquimó – “Só consigo escrever prosa de ficção de manhã. Das seis às oito e meia, no máximo. É nesse horário que minha cabeça funciona melhor, que eu consigo me concentrar mais. Ou me defender menos. Porque tenho a impressão de que às seis horas — isto é, mal-saído do sono —, sentado de frente pro laptop, já tendo tomado uma caneca de café sem açúcar e comido uma ou duas fatias de pão com manteiga, há pouca resistência entre o meu cérebro, minhas mãos e o teclado. É quando as frases saem mais facilmente. Não que não me dê trabalho; dá, claro. Às vezes muito, às vezes pouco. Mas acho que o maior esforço que eu faço é o de me disciplinar pra criar essas manhãs quase perfeitas — sem sono, sem ressaca e sem culpa. Por isso, quando estou escrevendo um conto (também escrevi um romance seguindo essa mesma regra), na noite anterior organizo minha mesa, deixando sobre ela apenas o laptop e alguma eventual anotação sobre o texto a ser escrito, ponho a água pro café na leiteira, o pó dentro do coador e durmo cedo, em geral antes das dez. No dia seguinte perco o mínimo de tempo preparando meu café da manhã. Dez minutos depois de acordar já estou escrevendo. Consigo dois ou três parágrafos por dia. Com poesia é outra história. O poema se impõe independentemente do lugar ou da hora. O negócio é estar sempre atento pra perceber quando ele está ali, querendo se transformar em palavras.”

Marcelo Moutinho, autor de Somos todos iguais nesta noite – “Até pelo ofício de jornalista, que nos obriga a redigir em ambentes movimentados e não raro barulhentos, em geral não preciso de muita preparação quando vou escrever ficção. O fundamental é que haja café em profusão e – ainda mais relevante – que não ninguém fite a tela enquanto digito. Prefiro escrever pela manhã, quando a mente ainda está vazia. E na maior parte das vezes, quando me sento para trabalhar, já tenho algumas anotações sobre o conto a ser criado: observações sobre enredo ou personagem, frases soltas, em alguns casos o final da história.”

Miguel Sanches Neto, autor de Chá das cinco com o vampiro – “Escrevo apenas em momentos de intensidade. Um romance vai tomando corpo a partir do acúmulo de observações, frases e memórias, que num instante de choque se unem e se reproduzem ficcionalmente, afastando-se de suas origens. Assim, só consigo escrever tendo à disposição muitas horas de trabalho e durante semanas seguidas, sem interrupções da vida familiar ou social. Quando abandono um relato, ele perde a temperatura e não consigo retomá-lo. Para não parar, tenho que começar a escrever sempre pela madrugada, dia após dia, e seguir até o final da tarde. Acordo perto das 4 da manhã, aproveitando o despovoamento da cidade e me sentindo a única pessoa na face da terra. Na hora em que estamos escrevendo somos sempre a única pessoa na face da terra.”

Ana Paula Maia, autora de Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos – “Escrever na parte da manhã é sempre melhor pois minha cabeça está bem fresca e ainda não tomei contato com a realidade. Sendo assim, entrar na realidade dos mundos que proponho fica mais fácil. Preciso estar limpa. Não gosto de escrever fedendo, suja ou suada. Não me importo com o som de uma britadeira trabalhando ao longe ou o toque da campainha do vizinho. O mais difícil é sair da realidade do mundo ficcional e encarar a fila no supermercado.”

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5 Respostas para “Manias

  1. mais um texto bem bom de ler por aqui!

  2. A minha mania é que eu só consigo escrever de noite, com o quarto arrumado, sendo que eu já tenha tomado um banho, com a escrivaninha perto da janela e a iluminação adequada. Dou duas voltas pelo quarto enquanto as idéias surgem. Sento na cadeira e escrevo. Ando um pouco mais, retorno, refaço e, quando vejo, construí um texto.
    Ou, como disse Neruda: “Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as idéias.”

    Abraço.

  3. Que texto gostoso de se ler. Como e de onde foi que ele saiu? Insônia?

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