A vida é nada

A vida é boa. As crianças sorriem de graça para mim. Não preciso fazer careta, nem me esconder e aparecer de repente. Parece que sou um daqueles personagens de “Onde Vivem os Monstros”, que parecem assustadores para as pessoas grandes, mas que são apenas um bicho de pelúcia gigante para as pessoinhas. Elas sorriem e retribuo não por educação, mas por ser inevitável. O sorriso delas me faz sorrir.

No instante seguinte lembro que ainda quero ter filhos, mas que, assim como muitos netos, eles não vão conhecer um dos avôs. A vida é uma merda. Dói tanto que meus olhos deixam a criança triste, em contato com uma profundidade de tristeza que espero que elas nunca venham a conhecer, mesmo sabendo ser impossível. Dói tanto que chega a doer, de verdade. No peito, principalmente, doutor. É a dor do vácuo, da ausência, a dor do nada no lugar de algo que era grande e bonito. Agora não é feio ou pequeno, só é nada.

A vida é nada.

Olho para o sol de outono, final de tarde e minha alma fica em paz. Que paz maluca é essa, de onde vem, não sei. Mas ela vem. Como uma criança, apenas recebo, mesmo sem saber sua origem. A paz ainda está misturada à tristeza, mas a dor não é mais angustiante. É uma dor de cicatriz, que vai ficar ali pra sempre. Ou como uma fratura mal curada, que é sempre sentida quando chega o inverno dessa vida. E eu me preparo para os invernos, para os dias cinzentos e os de chuva. Quando não dá vontade de viver.

A vida é boa e é uma merda, às vezes até ao mesmo tempo. É tudo e no instante seguinte é nada. Não sai disso, mas eu ainda me surpreendo. Preocupo-me em chegar o dia que não me surpreenderei mais.

______________

foto: Marina Sobral

Anúncios

6 Respostas para “A vida é nada

  1. A vida sendo boa e nada ao mesmo tempo. Já fiz uma conclusão semelhante. Sempre chegamos a um ápice sereno de desespero. Constatação sem alarde. Não precisa.
    Temos a morte como opção. Mas não. Não é viável. Espere mesmo até quando não se surpreenderá mais.
    Abraço.

  2. Gabriel, perfeito o texto é realmente essa sensação que se tem. Tem dias que é possível ver toda a beleza da vida em um sorriso de criança ou mesmo no flor do jardim. E há dias que parece que nós nos cegamos para a beleza dessas coisas simples e só conseguimos ver o lado ruim de tudo: as tragédias, a violência urbana, a corrupção, etc.

  3. Pingback: Motivo de vivência | sobre fatalismos

  4. A gente sempre acaba sendo surpreendido mais e mais.
    O que, pra mim, não é uma coisa muito boa.

  5. Oi Gabriel…
    Tava escrevendo sobre esse tema…Mas depois do seu texto, perdeu o sentido. Posso republicar no meu blog?
    Abraços!

  6. ah Gabriel, sabe, tem tana crianca q nao tem avo, isso eh mais do que normal. eu tb nao tenho mais pai, mas fazer oq? vai doer um pouco qdo eu tiver uma pessoinha, mas tb tem um motivo pra ser assim. paciencia ne?
    adorei teu blog, voltarei!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s