Pi π

Entrei na farmácia para comprar uma das coisas mais valiosas existentes na humanidade: o anticoncepcional da minha esposa. Acho incrível que algo tão fantástico esteja ali, ao alcance de um “Moço, preciso desse remédio”, enquanto entrego a ele um papelzinho meio amassado, com o nome do medicamento. Se fossemos depender da minha memória, eu já estaria com um time de futebol de salão de filhos e um estoque de sabonete em casa, já que sempre tenho a impressão deles estarem acabando.

Foi quando avistei um cara meio estranho, parado no meio de um dos corredores da drogaria. Ele tinha um olhar longe, meio perdido, quase insano. Passei de longe e pude entender a condição do moço: ele estava escolhendo absorvente. A não ser que estivesse com uma hemorrogia causada pela máfia italiana e não quisesse dar bandeira indo a um hospital, ele fazia aquilo pela guria dele, quanto amor.

Mas me compadeço dele. Se o contato mais próximo que você já teve de decorar o infinito é o Pi (π / 3,14159blablabla), então você nunca precisou comprar absorvente para sua mulher. Sério. Você chega em casa com um pacote de 36 absorventes (promoção) sem abas, noturnos, camada extra, essência de lavanda, cor-de-rosa, para os dias de inverno e descobre que o que ela queria era o que tinha gel rarefeito e você comprou o de algodão em gel. Difícil, meu amigo.

É uma prova de amor chegar ao caixa com aquele pacotão, quando você fica constrangido até no supermercado, na compra do mês, na hora de passar os 72 rolos de papel higiênico (promoção) pela registradora. É chato porque todo mundo sabe que você está precisando daquilo e que, em algum momento, será usado de forma mais constrangedora ainda.

Sempre torço, na farmácia, para ser um homem no caixa. Nada de machismo. É que as moças olham pra gente de duas formas: 1) romantizando o momento, me achando um fofo por fazer isso ou 2) com um ar de reprovação, já imaginando a besteira que estou fazendo, pois com certeza errei em algum detalhe do absorvente. O cara não. Ele olha pra gente e não precisa nem dizer nada. É um olhar de “Tamo junto”, de quem sofre as mesmas agruras dessa vida, mês a mês. Se eu abraçasse um deles depois de informar o número do meu CPF para a Nota Fiscal Paulista, duvido que ele não retribuísse entendendo meu sofrimento.

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14 Respostas para “Pi π

  1. Eu sempre me compadeci dessas coisas. O namorado outro dia foi comprar o absrovente e o anticoncepcional. Deus é pai, ele trouxe o certo.

    Achei absolutamente incrível ele não ter errado. Dei um abraço forte, come se ele estivesse voltando da guerra.
    Eu tinha uma missão tão embaraçosa quanto, quando eu era adolescente: comprar camisinha pro meu pai, com ele junto. Meu pai é cego. Imagina só eu lendo pra ele a variedade toda de camisinhas e todo mundo achando que ele tava me comendo?!

  2. Eu imaginava que essas coisas mudavam com a idade, mas cada mulher tem sua frescura, e a cada nova mulher que aparece na sua vida é um tipo de absorvente novo que você tem que memorizar. Meu pai sempre ficava confuso na hora de comprar absorvente pras 3 mulheres da casa, sempre acertava o da minha mãe e sempre errava o meu e o da minha irmã. Você sabe o que a sua esposa quer, mas com o tempo vêm as filhas e mais coisas pra aprender. Quando finalmente entendi isso tudo, eu passei a anotar pra ele todos os detalhes, inclusive a cor da embalagem.

    Meu primeiro namorado, certa vez, foi pego de surpresa quando eu, aos 15 anos, quase morri de cólica na casa dele e o pedi pra comprar o único remédio que faz a minha dor passar e um pacote de absorvente. Ele demorou tanto pra voltar, e voltou com 5 pacotes diferentes, porque não tinha a menor ideia de qual deveria escolher. E naquela idade, além da dúvida ele ainda teve que enfrentar a vergonha que os adolescentes têm de tudo.

    E ainda tem mulher que reclama quando tem que comprar camisinha!

  3. ohnnn!

    tô te romantizando agora depois deste texto!

    muito fofo!

  4. agora vou ficar romantizando um namorado que compre absorvente pra mim! rs

  5. heheheh, muito bom

  6. (E eu sempre tento comprar papel higiênico quando vou ao supermercado em horários estranhos, tipo no inicinho da manhã ou perto da hora de fechar. Se for fim de mês, melhor ainda. Mesmo assim, tenho certeza que a moça do caixa ‘tá reparando se o que comprei ‘tá na promoção, se tem folha dupla, se é neutro, se tem desenhinho etc.)

  7. “Tamo junto”.
    OBS: Pra fralda pra nossa filha é a mesma coisa! A noturna, com gel, abas especiais, super-confortavel e o dobro do preço, não pode errar a marca!

  8. Meu caro amigo fofo…
    Não basta ser marido, tem que participar!
    Desconfio que nosso desconforto diante de algumas situações, sob tantos aspectos do cotidiano, no fundo tem a ver com um certo desconforto com a nossa própria humanidade e falta de intimidade.
    Saber aproveitar das situações para produzir bons textos e brincar com a gente mesmo é talento e sabedoria. Parabéns!
    Boas compras e um pouco de sorte…

  9. Ótimo texto! Se eu fosse caixa da farmácia com certeza romantizaria o momento hahah Porque mesmo que o namorado erre, ou quase acerte, ele foi lá comprar, né? Vamos valorizar a intenção também!

    E olha a Lei de Murphy aí! Antigamente, quando existiam menos opções de absorventes, os homens não se sentiam confortáveis pra fazer esse tipo de compra. Aliás nem sei se as mulheres pediriam! Daí hoje em dia, que esse assunto é tratado com naturalidade (se não é, deveria), vocês tem que fazer uma baita pesquisa pra comprar hahah

  10. Infelizmente, sou daquelas pessoas que decoram Pi e que nunca terão um namorado à disposição para comprar absorventes e/ou anticoncepcionais.
    I’m loser.

  11. Ah, mesma coisa quando você vai comprar camisinha: você pega aquela que você sempre usa, que fica boa, confortável mas um dia resolve experimentar uma com sabor (você não, você vai usa-la, o sabor não vai provar… ah! você entendeu oque eu quis dizer) ou uma com textura ou qualquer outra “deformidade”.

    Chega no caixa e tem aquela tiazinha, nos seus 42 anos, mal-humor e ela teolha com cara de desaprovação, aquela coisa de “tarado, pra que tudo isso, vai fazer uma suruba, né”. Ainda é tabu comprar camisinha!

    Mas torce pra que seja um cara. O olhar também muda, daqueles acompanhado de um sorriso de FDP “ae pegador, vai se dar bem hoje hein. Manda vem, ate sentir cheiro de borracha queimada”. Nessas horas, tanto na compra de absorvente, como da camisinha, somos companheiros!

  12. Ih, isso que ‘cês não compram pílula do dia seguinte. Sempre temo que o farmacêutico pergunte o preço da rapidinha.

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