Noves fora

(Texto publicado originalmente no Epic Shit)

Ele olhou desconfiado, falei que curtia o trabalho dele, na qual emendou: “Cara, pode tirar foto sim. Só não mostrar meu rosto que tá tranquilo”. Ele foi sincero e garanti que essa cláusula não seria quebrada. Eu voltava de um almoço/reunião com os meninos daqui, lá no Biu, auto-declarada nossa sala de reuniões, e vi o Nove pintando, em dia cinzento e frio, perfeito para ninguém parar e ficar enchendo o saco. Tirando eu, claro.

Sou chato e, pior, jornalista. Parei de curioso, já que era um enorme muro branco ganhando uma enorme “mancha” colorida. Havia assistido um dia antes o trecho de uma entrevista no Multishow sobre grafites e o cara dizia que dá pra sacar se um desenho é brasileiro só pelas cores. “Ninguém no mundo utiliza-as dessa maneira, como vocês fazem.”

Dizem que o Crumb, quadrinista, também ficou impressionado como é possível descer de um ônibus, no meio da Vila Madalena, e encontrar coisas assim, que poderiam facilmente estar em uma galeria. “Aliás, Nove (- Te chamo assim mesmo? / – Sim,claro) tem aquele discurso de que o cara grafitava de graça numa parede e agora a dondoca do Alto de Pinheiros chama para pintar a parede da casa dela, e cobra-se uma grana boa por isso. O que rola?”
– Cara, de boa. Eu continuo pintando. Não to aqui, na rua, chovendo, frio e fazendo?

Na nossa conversa, chegamos à conclusão que esse assunto de vender arte vai além. A questão é não mudar o que se pinta. É continuar fazendo, onde quer que seja. No muro, correria, para não dar tempo da PM pegar, ou na sala de estar de barão, com cafezinho e bolacha. O problema seria mudar a pintura por causa do dinheiro. É como se eu mudasse meu texto, pensando no que tem mais venda.

É mais difícil e ainda assim é justamente o que todos procuramos fazer: produzir coisas que nos emocionem. Cacete, é por isso que fizemos esse site. Se querem pagar ou não, torna-se o de menos. “E a gente de texto, Nove? Tem futuro?”

– Meu velho, o texto é a tradução em palavras dos sentimentos e das emoções. Essa conquista milenar mudou a história da humanidade. A palavra escrita não tem futuro. Ela é o futuro, sempre, a todo instante. O presente dela é o próprio futuro, desde que foi iniciada. Vocês pintam com palavras, há milhares de anos. Tá respondido?

Está sim, Nove. Valeu.

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