Buenos Aires

Já ensaiei o início desse texto de uns três jeitos diferentes, pelo menos. Um deles falava sobre como eu gosto de fazer turismo quando viajo, de um jeito mais relax, sem me preocupar muito com os “Você tem que visitar tal lugar”. O outro tentava explicar o quanto Buenos Aires fez bem para mim, sem melodramatizar ou algo do gênero, apenas pela experiência incrível que foi viajar para lá. O terceiro era um sobre a NFL, não tem nada a ver com a minha viagem, estava cansado, já tinha desistido de falar dela, mas esse ficou para daqui alguns dias.

Meu vôo de ida foi no dia do meu aniversário, uma quarta-feira, 21h30. Meia hora antes, na sala de embarque, abri o notebook na tentativa de ter uma luz do que faria no dia seguinte. O fato é que estávamos há 12 horas de acordar em Buenos Aires e eu não tinha ideia do que faria depois do café da manhã, para que lado da rua iria quando saíssemos do hotel. Brincamos que havia ainda 2h30m para pensar nisso, durante o vôo. Dormimos os dois, claro.

No dia seguinte, antes do café, “Carol, seguinte. O que gente quer fazer? Onde queremos ir?”. Chovia muito e optamos por locais fechados. Sabe quando você chega em um parque de diversões pela primeira vez e fica meio perdido, meio bobo, sem saber pra onde correr primeiro? A sensação foi essa. Epic shit pra valer. Peguei metrô, me encharquei da chuva, rodamos ruas e ruas a pé e pensando: “Isso pode dar certo”.

E deu. Nesse dia choveu muito e dane-se, decidimos não comprar paráguas (“Sério, eu não vou levar isso de volta para São Paulo. Já odeio o meu guarda-chuva de lá, não preciso de outro”), resolvemos que se em Roma, faríamos como os romanos: casaco na lomba e capuz na cabeça. Já no fim do dia, comprei um jornal local, para ver como é que eles escrevem (bem bacana, com uns abres de matéria mais literários e ousados) e vi que uma tal de sudestada havia promovido a retirada de pelo menos 400 pessoas da Gran Buenos Aires. Li o Clarín e o La Nación inteiros, sentado na escada de uma loja, enquanto esperava Carol, que chegou ao final do meu jornal dizendo “Estou te esperando na porta da loja faz uns 20 minutos”. Sem problema, deu tempo de ler os dois jornais que havia acabado de comprar. Isso pode dar certo.

Segundo dia, muito frio, menos chuva. Resolvemos conhecer Palermo, descer a pé para perto do centro (o que nos possibilitou comer uma das melhores empanadas da viagem, em um lugar que só vendia isso e tortas, de bairro mesmo, com todos os clientes, e os quatro funcionários, nos olhando estranho quando entramos, afinal, “Vocês são turistas, não deveriam estar aqui”), descer até o Cemitério da Recoleta e voltar para casa exausto, largado dentro de um táxi, pela primeira vez na vida dentro de um automóvel com o aquecedor no máximo. Eu passaria, fácil, uma semana dentro daquele táxi. Perguntei para o motorista que caminho ele faria, ele resmungou o suficiente para eu entender e perceber que é o que eu havia pensado, olhando meu mapa. “Cacete, isso pode MESMO dar certo”.

Dia seguinte quase padeci por não ter conseguido ir ao jogo do Boca Juniors, que aconteceu a poucos quarteirões de mim, enquanto visitava Caminito, bairro ao lado da cancha del Boca, onde comi uma medialuna com queso y ramón fantástica, acompanhada da sempre Quilmes, claro, dessa vez uma stout. No fim, eles perderam pro San Lorenzo por 2×1 e fiquei satisfeito por não ter conseguido ir, ainda assim acreditando que se tivesse ido, o resultado teria sido diferente, já que sou meio supersticioso, foram raríssimas as vezes que vi um time perder enquanto estava no estádio.

O sol veio com voadora, os dois pés no peito, e entre 16h – 16h30, eu só não chorei porque três locais já tinham pedido informação de direção e ruas para mim e não queria estragar o momento. Claro que coloquei os óculos escuros para esconder as lágrimas que insistissem em vir, sentei em um banquinho qualquer na Plaza del Congreso, ao lado de um casal de velhinhos e comi meu alfajor de Oreo em silêncio, pensando que aqueles dois ali poderiam ser (e eu queria que fossem) eu e Carol, no futuro, não em um banquinho qualquer da nossa cidade, mas ali mesmo, em Buenos Aires. Eu poderia viver ali, um mês, três meses, um ano. Sério, isso daria certo.

Naquele momento, final do penúltimo dia, percebi, não havia jeito. Fui fisgado pela cidade como alguém que conhece uma guria em uma festa, passa algumas horas com ela, trocando ideia de forma despretensiosa, sem precisar fazer pose ou convencer de algo, que dá risada pra cacete com ela, percebe que é linda e, ao final, enquanto toca a sua música favorita para momentos assim, não entende como é que a vida existia antes de você conhecê-la e padece de imaginar uma vida daqui pra frente sem voltar a vê-la. “Mi Buenos Aires querida” é uma das expressões clichês sobre a cidade, assim como a camiseta “I ❤ NY”, mas cara, como traduz o que essa guria de cheiro amadeirado, de bons ares, fez comigo. Você consegue explicar o motivo da guria perfeita da festa perfeita ser tão perfeita e mexer tanto contigo? Nem eu. Mas assim que foi. Deu certo pra cacete e pode dar, quantas vezes quisermos, por quanto tempo pudermos, de quantas maneiras imaginarmos.

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Texto publicado originalmente no Epic Shit.

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2 Respostas para “Buenos Aires

  1. Oi, Gabriel!
    Achei teu blog naquelas “por acaso”, e quando topei com esse post sobre Buenos Aires, fiquei com os olhos cheios d’água. Sério. Sempre procurei explicar meu amor pela cidade e nunca consegui. É uma coisa que salta do coração e enche a cara de sorrisos e os olhos de brilho. Eu andava nas ruas querendo respirar Buenos Aires, como se pudesse trazer de volta um pouquinho que fosse de ar portenho. Tudo é perfeito, e eu também moraria lá, pra sempre.
    Só queria te agradecer por entender o que eu não consigo explicar.
    Beijos!

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