Zerovinteum

“Filho, sabe o Toninho, ali do bairro da igreja, que de vez em quando aparece lá? Então, me contou que alguns meninos conhecidos foram mortos, em um bar, essa semana. Chegaram metralhando tudo e eles foram mortos, junto com vários outros inocentes, pelo visto.”

Fiquei intrigado com a história. “Olha, pelo que soube, foi o Piolho, que o Toninho conheceu quando eram moleques ainda, no morro. O Piolho é conhecido por ser um cara muito, mas muito violento, em todas as suas atitudes. Ficou um tempo preso e, agora que saiu, decidiu tirar a milícia que tomou conta dos locais dele. Descobriu onde os milicianos iam no final do dia, chegou no bar – já com as portas abaixadas, só a saideira lá dentro – e metralhou tudo, não quis nem saber quem estava lá. O Toninho disse que dois meninos ali do bairro foram mortos, e mais um monte ferido.”

“Uma vez, ele soube de um cara que tinha traído ele. Amarrou o cara, no lugar onde estava dando um churrasco, no Morro do Saçu. O cara ficou preso lá no poste. De vez em quando ele vinha, cortava um pedaço da pele do cara, ou um membro, e jogava pros cachorros. Sentava, tomava uma cerveja, cachaça. Comia uma carne. Ia lá, cortava mais do cara e foi assim, o churrasco todo, o cara sendo morto aos poucos, durante um churrasco que ele deu.”

É muito fácil falar de coisas tão belas de frente pro mar, mas de costas pra favela.

(Marcelo D2, em Zerovinteum, lembrado pelo Vitor Zanirato)

– Ei, filho… ainda tem ouvido troca de tiros perto da sua casa?
– Não, pai… nunca mais.

Como assim? Simplesmente pararam? “Olha, depois que as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) começaram a tomar conta de uns morros, nunca mais. A Rocinha tá com uma entrada cinematográfica. Um monte de casa pintada, colorida… coisa pra gringo e turista ver. Mesmo. Tem até passeio turístico por algumas favelas, depois das UPPs.”

Mas o tráfico simplesmente sumiu? Não existe mais? “Nesses lugares, zero de tráfico. Nem nada.” Eita, mas e os caras que não foram presos? “Aí é que está. Correram para outros morros e complexos. Por enquanto, as UPPs estão nessas aí e se garantindo. Mas uma hora o cerco vai fechar, nessas últimas remanescentes, onde praticamente todo o tráfico foi parar. A tensão que rola aqui agora é essa. O que vai explodir quando decidirem encurralar a todos? Porque nego não vai ter mais nada a perder. É cair pras cabeças, metralhando.”

Carioca não tem paz… nem em tempo de paz.

Não retiro o que disse das coisas belas do Rio, no outro texto. Mas não posso esquecer nunca dessa frase do Marcelo D2, quando é muito fácil falar delas de costas pra favela. Ainda assim, essa cidade consegue me fascinar ainda mais, justamente por tudo isso.

Ela me faz lembrar que a vida é assim. Exatamente assim. Uma merda, um caos e, ainda assim, bela e com sol, de vez em quando praia. Tudo ao mesmo tempo, no mesmo lugar.

Que Deus me ajude a nunca dar as costas pra favela, lembrando sempre de não esquecer também as coisas tão belas.
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Texto publicado originalmente no Epic Shit.

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Uma resposta para “Zerovinteum

  1. Me lembra algo que minha mãe sempre diz: “Violência existe em todo lugar”.

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