O caroço da cabeça*

O calor insuportável pede ar-condicionado, mesmo que resseque a pele e o nariz. No mínimo um ventilador, para soprar bafo quente na cara. Antiinflamatório para a dor de dente, analgésico para a dor de cabeça, anti-histamínico para a rinite e anti-gripal para a coriza. Qualquer desconforto deve ser eliminado, qualquer incômodo pede urgência.

A chuva ainda não corrói instantaneamente, mas parece ácido sulfúrico que cai do céu, tamanho o desespero por um abrigo. Que dizer então das chapinhas e escovas, insatisfeitas com cachos, ondas e caracóis? “É, meu filho, você fala isso porque raspa e não tem cabelo ruim”. E desde quando cabelo tem conotação positiva ou negativa, de “pior x melhor”? Cabelo bom é o que te protege, conforme pede seu corpo e seu DNA. Cabelo ruim não existe. Ruim é justamente não ter cabelo, já que precisa de protetor solar para a careca.

Não acho que se tenho uma cárie devo deixá-la por lá, mas fiquei assustado outro dia, quando caminhando com um amigo, declarei: “Está muito sol, já estou suando” e ouvi: “Massa, suar é bom”. Não estava a caminho de uma festa, apenas indo de um ponto a outro, sem empecilho social algum. Não queria suar porque não queria suar.

Comecei a pensar nisso quando tive gripe suína em 2009 (não confirmada, então digo que era, para poder contar aos netos). O tratamento: ficar de cama uma semana, apenas tomando Tylenol quando a febre batesse os 39ºC, coisa que aconteceu vez ou outra. Geralmente, tomo algum remédio para gripe, mas curei como os antigos curavam, pelo menos na minha imaginação: esperando passar. Foi a melhor coisa. Só foi possível pois consegui um atestado médico dizendo que estava proibido de ir trabalhar, mas pude perceber que, depois disso, voltei muito melhor do que antes. Com os remédios, sempre fica um resquício e a gente precisa se recompor aos poucos. De cama, não fiquei mais gripado desde então, há quase dois anos.

Como sempre, o problema é o exagero, de qualquer coisinha tornar-se insuportável. Fácil acesso, fácil reclamação na falta de.

Tenho aprendido a saber sofrer. Não é masoquismo, é apenas diminuir a vida mimada que dou a meu corpo. Viramos adultos em grandes corpos de crianças, que, a qualquer incômodo, desatam a chorar e são prontamente atendidas.
_______

*O título é o mesmo dessa música do Herbert Vianna, Marcelo Frommer e Nando Reis.

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2 Respostas para “O caroço da cabeça*

  1. sua frase realmente resume bem os adultos de agora…

    ;*

  2. Muito bom Louback, concordo plenamente!
    Isso me lembra um livro de Chogyam Trungpa, «Além do Materialismo Espiritual». Em certa parte ele fala como nós, ocidentais, inventamos “soluções” para cada pequeno incômodo que sentimos; quando na verdade, a solução eficaz é apenas aceitar o fato tal como ele se apresenta.

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