Ser o homem da casa

“Tio, não joga fora a casca. Dá pra mim? É que o dono aqui cria minhocas, e isso é comida pra elas”. Eu terminava de comer uma banana e o guri, de 9 anos, foi lá, abriu a pilha de três caixas que por alguns dias achei ser entulho e me mostrou a criação. “Na caixa de baixo é onde ficam os xixis delas!” Depois, a mãe dele me explicou que regam as orquídeas com o líquido dejetado das minhocas. Como criança, achei que a criação fosse só pelo fato de poder dizer “Crio minhocas”.

Como adulto, o menino me conta o motivo de estar ali, morando com a mãe, que cuida dos chalés da pousada.

– E as aulas, começam quando?
– Ih, tio, não sei. Nem sei que escola vou.
– Como assim?
– É que eu me mudei pra cá agora. Morava em São Paulo também, mas meu padrasto deixou a minha mãe, e meu pai disse que eu teria que vir pra cá. Ser o homem da casa, sabe? Precisa de um homem aqui, que cuide da minha mãe e ajude ela.

Não tive coragem de dizer que meninos de nove anos não deveriam ser homens da casa e perguntei se casca de mamão também podia colocar lá, para ajudá-lo na tarefa de alimentar as minhocas.

“Pode sim, tio! Só não coloca carne e farofa, que elas morrem” e deu um sorriso maroto, como quem já tinha oferecido o acompanhamento do arroz e feijão.

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Uma resposta para “Ser o homem da casa

  1. Pior que a quantidade de crianças bancando o adulto que estão espalhadas por este país ainda são tantas…

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