Ficar molhado não é um grande problema

Com os argentinos aprendi a tomar chuva. Estive em Buenos Aires nos primeiros dias de setembro e descobri, lendo umas daquelas revistas de bairro, que agosto é um mês triste, muita chuva e muito frio. Inclusive, Julio Cortázar nasceu em agosto, criando o mito do mês melancólico, segundo a mesma revista.

A chuva caía constante. Nada parecido com os pés-d’água que temos aqui na região do trópico, mas sem garoa também, o suficiente para se molhar andando em um quarteirão. No primeiro dia fomos até o metrô, sem guarda-chuva, e saltando na estação desejada, pensamos em comprar um paraguas para nossa caminhada. Aqueles menores, de R$5 aqui, estavam caros. Olhamos para a calçada, o outro lado da rua e percebemos que a maioria das pessoas caminhava sem sombrinha ou guarda-chuva. Desistimos de comprar o nosso. “Se em Roma…”

Não era sábado, muito menos fazia sol. Acredito que ninguém tivesse a intenção de se refrescar com aquela água caindo do céu. Todos bem arrumados – era uma avenida principal, de movimento e comércio -, adolescentes voltando do colégio e senhoras com sacolas. Nenhum guarda-chuva. As pessoas entravam encharcadas nas lojas e ônibus. Ninguém de cara feia por essa estar molhada, ninguém reclamando de como se molhou, nem nada parecido. Simplesmente levantavam as golas de seus casacos e bora.

A suspeita confirmou-se nos dias seguintes, quando vi que a maioria deles anda assim, nos bairros mais endinheirados e nos mais simples. Parece um povo de bem com sua cidade, com seu clima. Se o tempo manda chuva, é com chuva que continuam seus trajetos, como se fosse apenas uma brisa mais fria, fechando as blusas e caminhando, todos molhados. E não é nem nesse esquema romântico (e bonito, eu acho) “tão legal tomar chuva, lava a alma” etc. Ficar molhado não é um grande problema, só isso.

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2 Respostas para “Ficar molhado não é um grande problema

  1. Curti. (Comentários prolixos, ‘tamos aí.)

  2. Aqui, na Bahia, quando chove, o despertar é londrino.
    Não estamos acostumados com o inconstante clima.
    Abraços.

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