Hoje não faz um ano que ele morreu

Hoje não faz um ano que ele morreu. Isso aconteceu em novembro de 2010. Mesmo assim, volto a pensar no tema. Assisti um seriado em que um dos personagens perde o pai e terminei o episódio chorando. De novo.

Sempre chorei em momentos de nervosismo ou quando brigava, não só quando criança. Já era mais velho e ainda acontecia isso. Consequentemente, durante anos reprimi qualquer tipo de lágrima, forçado mesmo, até que assisti Mar Adentro, com o Javier Bardem interpretando um cara tetraplégico e que luta para a eutanásia não ser crime. Ou foi Uma História Real, do David Lynch. Sei que os dois assisti com meu irmão, e que foram as comportas abertas de lágrimas seguradas por tanto tempo. Por isso, o “de novo” no final do parágrafo anterior não se refere a um outro episódio desse seriado, embora se refira também.

Essa semana foi a segunda vez, desde que você morreu (é a primeira vez que digo isso, “você morreu”), que sonho com alguma piada sua, me racho de rir, para logo em seguida acordar e me desesperar no choro, sabendo uma das piores sentenças que já tive até hoje: nunca mais vou rir com você. Só de escrever isso, minha alma treme.

A primeira vez foi uma brincadeira / piada que a gente nunca entendeu bem, mas que você se divertia. Acordei com o barulho da minha risada e quando abri os olhos não consegui conter o choro e acabei acordando sua filha mais velha, com quem casei. Desde seu velório que eu não chorava dessa maneira, compulsivamente (aprendi na pele a usar essa palavra) e de forma desesperada, como se fosse morrer se parasse de chorar. Foi uma semana depois de ter feito um ano da sua morte, quando tive que segurar as pontas, ser forte e abraçar as meninas, dizendo que tudo ficaria bem.

Dessa vez, estávamos todos mortos no sonho. Por isso, já sabia ser um sonho, então nem acordar rindo tive a oportunidade. Nele, comecei a chorar quando te vi e continuei quando abri os olhos. Sua filha mais velha estava ao meu lado e não queria que ela sofresse, como da outra vez. Consegui controlar o choro, como há muito tempo não fazia, e até consegui voltar a dormir.

Não sei porque, mas achei que já tinha chorado tudo o que podia nesse ano e dois meses, que ficaria triste muitas vezes, mas que não choraria por qualquer coisa. Como no dia em que o veião me apontou um cara em outra mesa e disse “Saca o carequinha… lembra alguém?” e eu não consegui mais dar um gole de cerveja e cachaça sem engolir algumas lágrimas junto.

O choro não está no peito, nem fundo. Está na ponta dos olhos. Já estive melhor, não sei, mas ultimamente tem sido difícil pensar em você e não chorar. Como hoje, assistindo um simples seriado, onde o personagem declara a mesma coisa que disse a meu pai, no dia em que você morreu: “Eu não estou preparado para isso”.

Desculpe, sogrão. Ainda não estou preparado para isso. Deus tenha misericórdia de mim.

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2 Respostas para “Hoje não faz um ano que ele morreu

  1. Pingback: O choro inconsolável | Crônico

  2. jan, fev. mar. abr, mai, junho….repito o que disse para mim uma amiga, quando perdi o meu pai….com o tempo fica uma doce lembrança….e acrescento, ficamos uma pouco mais fortalecidos…

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