Na esperança de expurgar meus demônios

Já aprendi que mesmo rodando todo o ambiente de um comércio (supermercado, por exemplo), não vou encontrar o que procuro, mesmo que já tenha passado pelo corredor do produto. Então, logo que entro já pergunto onde está o que preciso. “Bom dia, onde estão os cotonetes, por favor?” Essa foi a pergunta que fiz, mas só depois de ter percebido que havia falhado como ser humano, mais uma vez.

Entrei  na farmácia e, procurando alguém que trabalhasse no local, vi uma guria baixinha, de costas, que parecia estar de uniforme, com a camisa de um tom muito parecido com a calça jeans. Na minha cabeça só pessoas de uniforme combinam camisetas com a calça jeans, e eu estava certo, mas também errado.

Quando ela virou pude ver que era uma moça com síndrome de Down , a suspeita dela trabalhar ali caiu e fiz a pergunta para a atendente do balcão. Meu erro, que engano. Ao passar por ela, já falando com a outra funcionária, percebi o logo da farmácia em sua camisa.

Neguei meu instinto, de achar que fosse uma funcionária só porque a moça tinha síndrome de Down. Na minha cabeça preconceituosa ela não poderia ser uma funcionária da farmácia devido a seu distúrbio genético. Quanta babaquice.

Já fora da farmácia, ainda com vergonha de mim mesmo, fiquei pensando o motivo daquilo. Primeiro achei que é culpa da sociedade e das empresas, que não contratam cadeirantes, pessoas que tiveram paralisia infantil ou com Down, deixando-nos mal acostumados. Mas culpar o outro está na essência, né? Foi culpa da Eva, a cobra que me falou.

Em seguida assumi que era um preconceito que tinha e pouco importava sua raiz. Fiquei querendo voltar e falar algo para ela, pedir perdão, mas como estava de costas, não sei nem se ela percebeu que eu ia em direção a ela e mudei de ideia. Mesmo assim, se percebeu, não sei se seria o melhor jeito de me redimir, podendo constrangê-la ainda mais.

Nessas horas é que a gente sabe o tamanho do vacilo, medido pelo tempo em que ficamos pensando (e sofrendo) com isso. Não voltei à farmácia ainda e, mesmo que já arrependido, o perdão é o único libertador.

Talvez fique preso a esse sentimento para sempre, nunca podendo trazer o assunto à tona com quem realmente importa, já que não sou alguém próximo a ela. Pode ser até que seja uma coisa boa, para não esquecer o quanto consigo ser preconceituoso.

Vai ver, é por isso que escrevo, na esperança de expurgar meus demônios. Boa sorte com os seus.

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Uma resposta para “Na esperança de expurgar meus demônios

  1. Isso nunca me ocorreu. Mas certamente teria uma atitude bem próxima da sua, preconceituosa irracional que sou.
    Acho que escrevo pelo mesmo motivo.
    Abraços.

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