Para cada agradecimento tem alguém xingando a minha mãe

20h30, Teodoro Sampaio x Dr. Arnaldo. “Você é a primeira pessoa que converso assim hoje, sem ser pelo telefone”. Segundo Henrique, ninguém nos carros para pra conversar com ele. “Dos munícipes, o pessoal de carro? Ih, sempre com muita pressa, né? Mas os pedestres são os que mais agradecem, principalmente os mais velhos. Gente educada, sabe?”

Esse é o marronzinho (apelido carinhoso para os guardas da CET em São Paulo) e a pergunta foi: Quantas pessoas agradecem o que você faz?

“Olha, se você chega em casa e tem um carro na frente da sua garagem, e eu multo, resolve pra você? Não, mas se eu vou e guincho, você vai me adorar e me agradecer bastante. Mas imagina que é sexta. E o cidadão do carro guinchado? Só vai pegá-lo na segunda, e ainda pagando uma grana. Então eu diria que para cada agradecimento tem alguém xingando a minha mãe”.

Sempre atento aos carros que passam, ao semáforo que fecha, aos pedestres que atravessam, comenta: “Olha aquele motorista ali, por exemplo, falando ao celular. Eu poderia autuá-lo, e ele me xingaria. Mas, de onde estou vendo, ele só está segurando o celular, me viu e disfarçou, e nem conseguiver a placa dele. Então não tem como dar essa multa. Mas ele sabe disso? Se voltasse aqui, daria para agradecer, mas isso não vai acontecer”.

Henrique é um dos responsáveis pela área 2 da cidade. Ele conta que a Companhia de Engenharia e Tráfego divide São Paulo em 6 zonas. “Ta vendo esse número 2 aqui, no início do código da moto? Eu trabalho da Major Natanael pra cá, Teodoro, Sumaré, Heitor… [A Maj. Natanael é aquela que desce da Dr. Arnaldo para o Pacaembu]. Então não sei o que está acontecendo com os semáforos do Jardins, que não funcionam. Ali é a zona 1. Mas também sou um daqueles que levanta caminhão tombado na Marginal Tietê, sabe? Então, aí o cara do caminhão agradece bastante a gente, mas fica a Marginal toda atrás me xingando”.

Eu já tinha feito a mesma pergunta, sobre as pessoas agradecerem o trabalho, para outro guarda da CET, na Heitor Penteado, próximo ao metrô Vila Madalena. Esse estava mais sério, ajudando a organizar o cruzamento, com o semáforo apagado. Quando ouviu a pergunta, abriu um sorriso: “Cara… boa pergunta. Acho que nem 0,5% dos carros agradecem. Muito pouco, né? Fazer o que?”

Fiz questão de agradecer o trabalho que ele estava fazendo ali, “Muito bom”, e segui para casa.

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4 Respostas para “Para cada agradecimento tem alguém xingando a minha mãe

  1. Pingback: Só para não deixar a gente entrar | Crônico

  2. essa coluna tá ficando o máximo, lou!
    ótima chance de mostrar o quanto a gente é mal agradecido pelo tanto (e vindo de tantos) nessa vida.

    ;*

  3. Pingback: U2 | Crônico

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