Nada bem

Ela entrava em casa e eu não sabia o que fazer. Perguntar como estava era desnecessário, o choro mostrava que “Nada bem”. Foi uma das épocas em que mais me senti perdido, sem ação, sem saber como confortá-la, o que fazer para que ela não sofresse ou até sofresse menos. Mas não tem como. Não tinha nenhuma palavra, não tinha como dizer qualquer coisa que ajudasse a melhorar o sentimento dela de “Estou perdendo meu pai e não posso fazer nada”.

Qualquer que seja sua religião, tendo você uma ou não, é fato: não existe palavra nenhuma para dizer em momentos assim que ajude a pessoa a sofrer menos. Aprendi a abraçar e dar apoio, em silêncio. Respeitar o sofrimento, mas sofrendo junto. Desisti de buscar palavras (sou jornalista, guardo o máximo delas que posso, para os textos e as ocasiões necessárias, mas não encontrei) e me deixei chorar junto.

Ela entrava em casa chorando, voltando do hospital, e eu apenas abria meus braços, para que ela pudesse chorar em mim, sabendo que não estava sozinha, e que eu sofria junto. Que o sofrer dela era meu sofrer e que “Estou com você… estamos juntos” era o melhor que eu podia fazer, nem precisando dizer.

Por isso, quando estávamos no metrô e o trem passou pela Estação das Clínicas, pegando uma mulher que sentou e desabou a chorar, ela disse: “Sempre vejo alguém chorando aqui nessa estação. Lembro quando eu saía daqui também, pegava o metrô nessa estação, e ia para casa chorando, o trajeto todo”. Perguntei se ela queria parar e falar algo com a moça cheia de lágrimas. “Falar o que? ‘Isso, pode chorar’? Ela já sabe”.

Pensei em dizer “Sei o que é isso, tem quem sofra com você”, mas ela continuaria seu caminho sozinha. Acho que ainda não aprendi a lidar com o sofrimento humano. Talvez nunca aprenda.

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3 Respostas para “Nada bem

  1. Adoro a sensibilidade das suas palavras, parabéns. Quanto a dor… não existem palavras, nem quem sofre as espera… texto delicado.

  2. Nessas horas, o melhor é prestar o mais solidário silêncio. E um abraço tanto quanto.

  3. Nesses momentos a única coisa que a gente pode fazer é respeitar a dor e dar o ombro pra chorar…

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