O choro inconsolável

Como homem, fui programado para consolar choros alheios. No mínimo, tratavam (professores, tios, educadores, pais) meu choro como algo a ser resolvido. Havia um problema, havia o choro, era necessário achar a solução. Digamos que fui constituído dessa maneira.

Por isso, ao ser apresentado ao estilo de choro inconsolável, não sei o que fazer. “Mas você não tem que fazer nada”, dizem. Eu sei, é óbvio. Mas, como falei, fui constituído assim. Convido-o(a) a ir contra sua constituição, uma qualquer que seja. Me conte depois como foi.

Seria bom jogar a bomba e terminar o texto ali, mas acontece que o choro inconsolável não para. Por todos os lados, de diversas maneiras, por inúmeros motivos, vejo pessoas chorando inconsolavelmente. Eu mesmo já experimentei o gosto da lágrima que desce não salgada, mas amarga, de um choro compulsivo.

“E o que fazer?”, é a pergunta que me enche o saco, mesmo racionalmente sabendo que nenhuma ação minha será eficaz em consolar esse choro desgraçado (minha mãe me ensinou a nunca chamar alguém de desgraçado, mas, peço licença, mãe, para o caso, já que é um choro desprovido, sim, de qualquer graça. Abandonado e desamparado).

Mesmo não tendo resposta para uma pergunta que não deveria ser feita, sei reconhecer mais facilmente, hoje, quando é esse tipo de choro. Primeiro, claro, você pensa em algo para falar e percebe que qualquer coisa será pura babaquice. Assuma: “Não sei o que dizer”. Excelente, não diga nada.

Só que ele piora: toma conta da pessoa, de todo seu corpo, que estremece a cada expiração que mistura choro, grito e desespero. Sei que é um caso de choro sem solução quando minha alma arrepia e meus olhos enchem de lágrima, sofrendo também a dor daquele choro, ainda que não seja minha dor.

Quando é esse o caso, assumi que vou simplesmente abraçar a pessoa, da maneira mais firme possível que ela entenda que estamos juntos. Que, embora eu não tenha resposta para seu choro, eu choro também. Eu entendo. E saiba que, se você precisar desabar em lágrimas no apoio de alguém, meus braços e meu colo estão à sua disposição. Que eu odeio o fato de não poder fazer nada, absolutamente nada, que resolva, tire ou amenize sua dor. Mas que me dói vê-la sofrendo tanto. E que se meus olhos enchem de lágrimas, não importa mais se é por sentir a mesma dor ou por doer vê-la assim. Mas que eu choro contigo e, abraçado a você, nosso choro é um. Você não está só.

Tamo junto.

Anúncios

3 Respostas para “O choro inconsolável

  1. Obrigada pelo abraço…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s