Na linha branca


É ali que as sirenes silenciam. Acho que nunca tinha visto isso, sem que a viatura (fosse da polícia ou uma ambulância) chegasse ao local do atendimento. Ali não. Elas silenciam pois voltaram, não porque chegaram. Sei que voltaram, mas não sei como estão as pessoas dentro daquela gigante caixa branca sobre rodas, cheia de aparelhos eletrônicos por dentro, para manter o paciente vivo até que os médicos tomem conta.

Foi ali que um querido conhecido também silenciou. Um dia simplesmente seu coração não cantou mais e o silêncio dele fez coro com o silêncio das ambulâncias que chegam ao complexo do Hospital das Clínicas. Passo por ali diariamente. Descobri que é mais rápido do que o caminho que fazia, ganho quase 10 minutos. Tenho conhecidos que não gostam do trajeto, justamente por considerarem triste demais. E estão com razão, principalmente os que também perderam alguém ali. Não há como (nem porquê) contrariá-los.

Ao caminhar hoje cedo por aquela rua, percebi que essa perda me fez mais sensível ao sofrimento do próximo, ainda que eu seja menos impactado. Antigamente, ficaria muito mais incomodado, quase que querendo fugir daquele cenário. Hoje consigo transitar sem me surpreender – talvez a palavra seja essa. Sou impactado, fico triste, mas não me surpreendo.

Porém, ao final da rua, percebo ambulâncias que saem para a Rebouças, ligando suas sirenes, abrindo caminho em meio ao trânsito de São Paulo, para chegar o mais rápido possível a seus destinos. O ligar das sirenes é o nascimento também de uma esperança, de trazer vida a quem está prestes a perdê-la, até mesmo de entregar de volta, a quem possa ter perdido e eles poderem dá-la de volta, uma nova chance.

Um amigo tornou-se pai, recentemente. Todo o pré-natal de sua esposa foi feito ali, no complexo do HC, bem como o nascimento da pequena que nasceu saudável, ainda que tenha passado por uma gravidez um tanto quanto delicada. Graças ao cuidado do hospital, o parto foi absolutamente tranquilo e uma nova vida nasceu.

Não há privilégios ou distinção. Assim como as sirenes que, ali, são ligadas ou silenciam-se, vidas partem e vidas nascem. O problema é quando paramos de reparar nas sirenes e deixamos de ouvi-las. Abra os olhos e ouça a canção que elas tocam. É caótica, às vezes parece fora de ritmo e sem melodia, mas é possível compormos algo. Se tivermos sorte, conseguiremos tocá-la para alguém ouvir.

Você já ouviu sirenes hoje?

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3 Respostas para “Na linha branca

  1. Gá, eu trabalho na Paulista e, portanto, ouço todos os dias umas 5 (eufemismo) sirenes.
    Quando as ouço, não penso em vida indo ou chegando. Penso que, de certa forma, existe algo que grite tão alto a ponto de fazer todos darem passagem. E olha que isto, na Paulista, é praticamente um mligare.

  2. texto excelente: limpo, cirúrgico, humano! percepções e reflexões de um amadurecimento.

  3. Cara… Você se torna mais especial a cada dia, por ser exatamente quem eu conheci a anos atrás!!! Sou absolutamente abençoado pelas amizades que fiz durante toda minha vida e você está aqui, presente no peito!!! Cada abraço, cada aperto de mão são “combustíveis” para começar a semana!!!
    Bjs!!

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