Não ultrapasse, propriedade privada

No carro, (ela dirigindo, eu de carona), minha mãe me conta que naquele local ali não havia nada disso. Apenas uma pequena rua que saía da Santo Amaro e desembocava perto do leito do rio. Mas isso faz 4 anos apenas, não 40. E é a Gomes de Carvalho, uma das principas vias, hoje, da Vila Olímpia. Não acreditei.

No dia seguinte, esperando o ônibus, reparei em dois prédios ali, que pareciam idênticos, embora fossem claramente diferentes. O concreto parecia o mesmo, o acabamento, a cor, sem contar as tradicionais janelas espelhadas da Vila Olímpia. De repente, eram três os prédios diferentes, mas iguais. Quatro, cinco e meia dúzia, um ao lado do outro, nenhum fazendo parte do mesmo conjunto ou condomínio, mas iguais, como se fossem rapazes de calça social escura, camisa clara, sapato e cabelo penteado, como 90% dos que passam pelas calçadas desses e outros prédios naquela rua e bairro.

Fiquei a fitá-los, os prédios. O motivo era o sol que se punha no horizonte; horizonte que não mais consigo ver direito enquanto em São Paulo. Ainda assim, as cores do sol nesse horário chamam minha atenção tanto quanto um pernilongo em meu ouvido nas noites de calor que têm feito. Um zumbido ensurdecedor são as cores do sol que se põe. O amarelo-laranja-avermelhado deixava os prédios menos tristes e imaginei a falta que o sol sente disso.

Sempre pensamos na necessidade vital que temos — a natureza — do sol. Sentimos a falta dele em nossas peles, nossos ossos se fortalecem com ele, colocamos as plantas para serem regadas por ele, nossos gatos e cachorros causam inveja em nós ao se deitarem e simplesmente se esparramarem por ele. Lembrando que há menos de 5 anos aquilo ali não tinha prédio algum, imagino quantas árvores deixaram de sentir isso, para agora termos apenas algumas mudas mirradas na ilha da avenida que separa as duas mãos da via. Mas e o sol?

Consigo ver a beleza que há no momento, mas não há resposta de quem o recebe (nenhum ser humano, já que estamos cercados; falo mesmo dos edifícios). Já que humanizamos plantas, tomo a liberdade de imaginar que o sol também sente falta, de alguma maneira, que aquele raio que demorou 8 minutos para atravessar o espaço seja simplesmente repelido. Claro, o sentimento é meu. Eu que sinto falta do sol, eu que sinto falta de sentir a pele processando os raios (devidamente protegida, use filtro solar) e transformando em vitamina K, da cenoura ingerida no café da manhã fazendo mágica em minha melanina. Sol. Só.

Diferente do que faria minha fotossíntese torpe, o concreto padrão dos prédios repele a luz do fim do dia. O melhor concreto de todos, inclusive, é o que não retém calor, para não danificar o poderoso sistema de ar condicionado de cada um dos edifícios. As janelas espelhadas não são uma tendência arquitetônica. São avisos de que aquela luz não é bem-vinda, que ela atrapalha, que seria melhor a vida na Vila Olímpia sem ela. “Não ultrapasse, propriedade privada”.

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foto: Daigo Oliva 

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3 Respostas para “Não ultrapasse, propriedade privada

  1. Muito bom texto! Parabéns!

    Infelizmente essa é a realidade…

    Cada vez menos vida… cada vez mais concreto…

    😦

  2. “Fiquei a fitá-los, os prédios.” – ó que frase bonitinha! 😉

    e eu moraria nesse lugar aí..

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