Me balança, tio

Me senti um vencedor esses dias, quando tive que ir ao Poupatempo e me segurei quando a colega do cara que me atendia mandou: “E você acredita que eu, literalmente, dormi na cara dura do professor?” Imaginei o que poderia ser essa cena, literalmente, e achei melhor passar. Valeu a pena, pois naquele instante eu já era invisível pra ela, que continuou o papo: “E a Judite, você sabe como ela é, né, ela recebeu um cara aqui e, na hora de preencher a profissão, ele me solta: ‘Homem-Aranha’, e você conhece a Judite, né, claro que ela colocou Homem-Aranha no formulário. Menino, o moço não me voltou no outro dia vestido de Homem-Aranha!? Eu não sabia se ria ou se ficava com dó, mas ele falou a verdade, né?”

Ouvir conversa alheia, uma dedicação que tenho. Sigo pessoas na rua, falando ao celular, conversando com um colega, como se estivessem em casa. “Amiga, não é que minha filha falou ‘Se o papai não quer mais morar com você, eu também não quero ir pra casa dele’, uma fofa, né!?” Eu mesmo coloco o celular no ouvido pra disfarçar e acharem que não estou prestando atenção.

Claro, as pessoas também contam suas histórias pra mim, naturalmente, sem que eu precise segui-las. Meu avô, por exemplo, vai fazer 80 anos e ainda trabalha. “Meu neto, repare: toda vez que alguém vai sentar a pessoa olha onde vai acomodar o bumbum, é verdade!, não ria, repare. A pessoa olha onde vai sentar, mesmo que esteja no conforto de seu lar. Eu reparei nisso, sabe?, fiquei atento a isso. Foi aí que decidi vender espaço pra anunciarem nos bancos da praça aqui da cidade. Meu senhor — eu digo ao dono da farmácia — já que a pessoa vai olhar onde está sentando, porque não olhar pro nome da sua farmácia?” E o vô tem razão. E o vô é ‘dono’ de uns 30 bancos assim na cidade dele.

E criança, bixo. Adoro bater papo com elas. Não suporto infantilizar uma criança e gosto de pensar que elas me respeitam por isso. Ou simplesmente não entendem o que falo e me ignoram, uma liberdade que admiro.

Esses dias, o filho de um amigo, de 5 anos [acho que é isso, não sei, minha esposa que sabe a idade das crianças] estava na rede, olhou pra mim e: “Me balança? Agora é a hora do meu cochilo da tarde.”
– Você está com sono?
– É.
– E o que é estar com sono?, me explica como é isso.
– Ah, é como dormir nas nuvens.
– Verdade, cara. Essa é uma grande verdade. E como você sabe que está com sono?
– Ah, é quando eu faço assim, ó: Aaaaarrhhhh [bocejo]
– Saquei. E toda vez que sente sono, você dorme?
– É.
– Toda vez?
– Aham.
– E se você sente sono na escola?
– Ahn?
– É, você não sente sono quando está na escola?
– Nunca senti.
– Você é um cara de sorte, meu amigo. O tigrinho também vai dormir? [Ele estava abraçado a um tigre de pelúcia]
– É.
– Que legal. E qual o nome do tigrinho?
– …hum, Tigrinho, ué.
– Não, eu sei que ele é um tigrinho. Igual você: você é uma criança, mas seu nome é Arthur. Qual o nome do tigrinho?
– Tigrinho! Esse é o nome dele.
– Ah, OK, desculpe. Posso conviver com isso. Mas me conta, como vocês se conheceram?
– Olha, um dia eu cheguei em casa, de volta das férias, né, pra onde eu tinha viajado, porque eu viajei nas minhas férias, pra outro lugar, não era esse, aí voltei desse lugar, voltei pra casa e, olha!, ele tava lá em cima da minha cama! Me esperando!
– Rapaz, que legal!
– É.
– E nessa amizade: você que protege ele ou ele que te protege?
– Hum, ele me protege e eu protejo ele, os dois.
– Bela amizade você tem aí, cara. Não perca isso.
– É. Me balança, tio! Tô com sono.

E também teve um sono de dormir nas nuvens a criança minha que estava ali com ele, cansada de perseguir pessoas nas ruas pela curiosidade em ouvir uma conversa alheia.

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3 Respostas para “Me balança, tio

  1. rosane da silva berthaud

    LIndo, como sempre. Continuo sua fã.

  2. muito, muito genial. concordo com tudo e faço tudo igual, adoro bater papo com criança, e acho estranho quandos os adultos olham pra mim com aquela cara “olha lá, tadinha, o gabriel esta enchendo o saco dela” e de com certeza o papo é muito menor ou menos importante que os deles na sala, os adultos tem essa mania de achar que as crianças estão sempre amolando e enchendo o saco de um adulto, simplesmente por estar falando. Se eles soubessem que eu piro em conversar com criança, muito mais que falar com adulto, não me entenderiam, é claro….pra variar. Holden Caulfield mode on aqui (:

  3. muito legal, a gente sempre se surpreende com o que as crianças falam, elas não pensam e são sinceras.

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