O céu de Ícaro encontrou o de Galileu

Dezessete segundos dentro de uma vida não é nada e pode ser tudo. Para mim, esse é o tempo entre a ousadia do passado [loucura, às vezes] e a garantia do presente. Explico.

No último domingo, um austríaco saltou de uma plataforma espacial alçada por um balão meteorológico até a estratosfera de nosso querido planeta azul. Durante sua queda, era possível perceber um contador mostrando quanto tempo ele ficou caindo. Foram 4m19s. Na parte debaixo da tela havia uma outra legenda, com o recorde mundial de tempo em queda livre: 4m36, Joe Kittinger, 1960. Mil novecentos e sessenta, cara. Fui pesquisar sobre esse tal de Joe e descobri que era o senhor de 84 anos que estava no centro de controle dessa missão, conversando com Felix Baumgartner, o austríaco que quebrou o recorde de maior altura em um salto em queda livre [39 mil metros], maior distância caindo [36 mil metros] e maior velocidade vertical em queda livre [1.174 km/h]. Assista [tem mais de 15 minutos]:

“Os Eleitos”. Parece nome de livro religioso ou de autoajuda, mas é uma aula de jornalismo literário do Tom Wolfe. O livro conta a história da corrida especial entre EUA e URSS (ex-União Soviética, se você nasceu depois de 1990) durante a década de 60. Os fatos relatados mostram a que ponto chegou a necessidade dos norte-americanos ganharem essa competição, com os pilotos muitas vezes não se importando com baixos salários e situações de risco extremo.

O nome do livro em inglês [“The Right Stuff”] traz algo peculiar: havia um fator determinante para alguém fazer parte dos eleitos, não mensurável por máquina alguma ou ciência inventada: the right stuff [a “fibra”, na versão em português, mas que não deixa o conceito tão etéreo e misterioso quanto o original]. The right stuff é o que diferenciava aqueles pilotos do resto dos pilotos. Alguns podiam até ser melhores do que outros, mas se não possuíssem the right stuff, eles não serviam para o trabalho.

Desconfio que Joe Kittinger, o ainda recordista de maior tempo em queda livre, seja o cara que tinha the right stuff. Era 1960 e ele ficou 6% de tempo a mais, em queda livre, do que um maluco 52 anos depois. O livro de Tom Wolfe mostra exatamente isso: não importava o quão simples ou crua era a tecnologia da época, esses pilotos só queriam ir para o espaço, acima de tudo, sem importar as consequências, sem importar [tanto] as condições. Aqueles homens fizeram coisas nas quais a tecnologia e os instrumentos da época não estavam preparados para eles. Mas alguém precisava fazer [segundo eles].

A declaração de John Kennedy, presidente dos EUA quando o homem chegou à lua, é uma das maneiras de entender esse espírito:

Nós decidimos ir à lua. E nós decidimos ir à lua nessa década, e fazer todas essas outras coisas, não por  ser fácil, mas por ser difícil.

Muitos se perguntam porque gastar tanto dinheiro com isso ou o motivo para uma marca levar alguém até à estratosfera, e então jogá-lo de lá.
Bem, porque eles podem. E porque alguém sempre vai fazer aquilo que gostaríamos e muitas vezes não podemos.

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Foto: Mariana Neri

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2 Respostas para “O céu de Ícaro encontrou o de Galileu

  1. Será que todo mundo tem uma right stuff?

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