Quem vai virar o jogo?

Fiquei pensando em um jeito de começar esse texto, com alguma analogia ou de onde veio a ideia, mas às vezes a melhor maneira para um início é ir direto ao assunto [desconsiderando, claro, essa minha introdução]: quando nos oferecemos para segurar a bolsa ou a mochila de alguém no ônibus achamos que estamos ajudando o mundo a ser um lugar melhor. Mas você acha isso mesmo? De coração? Pois eu não acredito.

Claro, existe uma pessoa ali do nosso lado, carregando o peso de seus acessórios e nossa ajuda possibilita que ela se segure melhor nas barras e se desequilibre menos, tirando um peso dos ombros e até ajudando o fluxo de passageiros no corredor. Mas por que a gente não se levanta e oferece nosso lugar? Por que a gente se contenta em segurar a sacola pesada e acha que isso é o suficiente? Não estamos fazendo nada de ruim, mas não estamos fazendo nosso melhor. E isso me incomoda.

Estamos satisfeitos em só fazer o mínimo esforço necessário para que a nossa ajuda não chegue a nos prejudicar. E toda vez que me ofereço para segurar a mochila de alguém, me sinto sujo. Pois sei que eu poderia ser melhor do que aquilo. Eu só não quero ser. No fundo, eu escolho não ser melhor.

E estou cansado disso. Cansado de me satisfazer com o suficiente para aliviar minha culpa, aliviar o peso da pessoa, mas não fazer tudo, exatamente tudo o que estava ao meu alcance para facilitar a vida da pessoa ou ajudá-la de forma completa. Apenas o necessário para não ter eu que ficar em pé; não ser eu a ficar incomodado, apertado e esbarrado no corredor. De que vale uma entrega de si, se ela não é completa? De que vale a oferta de uma ajuda se eu não fiz tudo o que podia? “Ah, mas pelo menos você fez algo, diferente de quem não faz nada”. Pode ser, mas isso não me convence mais. Quando você percebe que por preguiça de ser melhor você não é melhor, não tem mais como se enganar.

Se eu não posso oferecer o meu melhor como ser humano, então retiro o meu direito de esperar o melhor da humanidade. Algo precisa mudar. Ou eu, ou a minha esperança.

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4 Respostas para “Quem vai virar o jogo?

  1. hum….por que tudo que fazemos (hoje) tem que ser para um mundo melhor? não pode existir somente a vontade de fazer algo que consideramos ser um bem, ainda que pequeno?…por outro lado, se posso oferecer ajuda no peso de uma bolsa/mochila, por que não pode ser este o meu melhor? e se estou cansado? e se tbém preciso cuidar de mim?..hum….claro, se tenho pessoas mais velhas, mais necessitadas, etc, os argumentos são outros…mas, certamente o seu texto nos faz refletir….

    • boas perguntas. me fazem refletir também 🙂
      acredito que ceder o meu lugar a alguém já seja fazer um bem ainda que pequeno.
      a noção de “para um mundo melhor” vem em meio a achar que até ceder meu lugar é para isso. “fiel no pouco, fiel no muito”. se no pouco que eu poderia fazer, eu não faço, como farei no muito? [considerando que eu não esteja cansado e pudesse ficar em pé, sendo mais preguiça, comodismo e egoísmo mesmo].

      mesmo assim, quando você pergunta “se esse pouco é meu melhor?”, então não é o ato, em si, que faz a diferença. mas você ter feito o seu melhor. me incomoda menos o ato em si, e mais a entrega, quando não é a melhor. a qualidade dela é outra coisa, que não questiono.

      busco o melhor inclusive dentro de minhas limitações, como você diz, sejam elas egoístas ou físicas.
      e sendo sincero comigo mesmo, nas minhas decisões. 🙂

      quem vai virar o jogo?

  2. Não sei !!!
    As vz pensamos que o melhor ainda esta por ser ou “por vir” de mim mesmo.
    Vivemos num mundo HOJE que muitas coisas estao invertidas – fato. Qdo eu andava de onibus e metro com minha mae ela sempre dizia: “…pode sentar aqui comigo mas se chegar alguem mais velho e que precise sentar, você seja educado ….” Ai esta o “X” da questao: a educacao.
    Isso ja não existe mais nesse mundo atual, infelizmente (por isso coloquei o hoje em maiusculo acima).
    Na minha opniao a falta de educacao em tudo que vemos hoje nos leva a pensar como você Gabriel.
    As palvras do Jones, pra mim, falam por si so. Temos que fazer diferenca e diferenca com vontade.
    Essa semana eu estava com alguns extrangeiros num jantar e me senti um nada vendo a educacao deles. Pq não podemos ser assim ? Eles falam obrigado pra tudo, pedem licenca pra coisas simples (como pegar um guardanapo). Nos não fazemos isso (muitos).
    Ah !! Mas o brasileiro eh assim mesmo !! Somos praticos …. NÃO !! Somos frios.
    Temos que querer um mundo melhor e mais justo (com tudo), se não, não vai sobrar nada pros meus netos, bisnetos …. Se Deus assim permitir.

    (Virei o jogo?)

  3. Discordo quando vc diz que não fez completo. Se pensarmos num metro ou ônibus pilhado de gente, todos cansados depois de um dia exaustivo, com colegas de trabalho querendo a todo custo te puxar o tapete, seu chefe te infernizando e seu sapato machucando e mesmo assim vc, que conseguiu um lugar porque ou chegou antes, ou foi mais esperta, ajudar uma outra pessoa cansada a carregar sua mochila ou pacote ou sei lá o que, não está fazendo a coisa pela metade, está doando uma parte sua que ainda está de pé, com forças para ajudar.

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