Toda feia e malcuidada

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Ela é assim, toda feia e malcuidada. Em uma família à margem do que não é muito bem quisto, consegue ser a preterida. Não a procuram pra fazer matéria de final de ano ou Carnaval, nem mesmo as apelativas. Suja e caçoada, ninguém se apega a ela e não sei se é ela que não permite ou, justamente por não a procurarem, também não se esforça. Mas ontem a Barra Funda conseguiu arrancar um sorriso meu. Sei que não vale muito, mas também não sou fácil.

Desde que me mudei para a região, passei a utilizar mais sua estação de trem e metrô. Sua praça de alimentação é como abrir uma caixa de pizza sabor 32 queijos com cobertura de pipoca. As vésperas de feriados, e até mesmo algumas quintas e sextas-feiras, promovem auês em suas imediações dignos de uma Mumbai. São ônibus clandestinos estacionados do lado B da rodoviária, nada de pararem na avenida do Memorial. Eles ficam na saída dos ônibus “oficiais”, tendo como plataforma a calçada que se estende até o final da rua da Várzea, acompanhando a linha do trem e que fica de frente para a Record. Tem café, bolo de fubá, pão de queijo, leite quente, salgadinho, pilha, rádio e, claro, cigarros. Pilhas de Eight sendo vendidos nas barracas e descartados nos chãos.

Tem quem sinta repulsa por um ambiente assim, mas como um autêntico paulistano filho de migrantes, nascido e criado na cidade, sei que isso faz parte do show. Mas ninguém disse que seria uma comédia. A sujeira criada pela desordem e clandestinidade não ajudam a região, muito menos a própria estação da Barra Funda, que muitas vezes acaba sendo apenas um mal necessário no caminho de quem quer chegar logo a seu destino.

Mas ontem não. Ontem ela foi palco de um show mais bonito. Sei que estou personificando um amontoado de concreto para esse texto desde a primeira linha, mas em São Paulo as pedras dessa selva têm vida. Ninguém pode me dizer que as marquises de Pinheiros, por exemplo, não são a extensão folhosa de árvores frondosas que possuem o formato de pequenos predinhos e comércios da Teodoro. E a Barra Funda foi atuante nessa cena.

Meu ônibus passou em frente ao terminal, pela avenida. Dentro dele havia uma moça com uma cara um tanto quanto distante, melancólica. Fiquei triste com ela por alguns segundos, mas só por alguns segundos. Olhando pela janela, pude vê-la abraçada a uma mulher um pouco mais velha que ela. Fosse irmã, mãe, tia ou amiga: o abraço foi eterno. O ônibus partiu do ponto e, até onde pude acompanhar, elas continuaram abraçadas. Gosto de imaginá-las abraçadas ainda ali, tendo a Barra Funda como palco de algo tão raro e precioso quanto um abraço eterno.

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10 Respostas para “Toda feia e malcuidada

  1. Lindo texto, moreno 🙂

  2. suas fotos e cronicas dariam um bom livro sobre a nossa Sao Paulo… 😉

  3. sei que sou suspeito, este é o meu viés assumido e vigiado, mas, mas….muito bom!!! (só as frases, valem a crônica (1) “Sua praça de alimentação é como abrir uma caixa de pizza sabor 32 queijos com cobertura de pipoca”; (2) “Gosto de imaginá-las abraçadas ainda ali, tendo a Barra Funda como palco de algo tão raro e precioso quanto um abraço eterno” – Não pare! Não pare! rs

  4. Emily, sobre o livro, já cobrei! Mas me ouve?! hahahhahaha

  5. Marcia Ventura Yasuda

    Adoro os seus textos, estava com saudades deles, ainda bem que seu pai lembrou de enviar para nós. Parabéns e concordo com a Emily!

  6. Que delícia poder novamente num final de noite…ler uma crônica tão impactante por descortinar uma barra funda…tão funda…mas trazer a tona o toque tão essencial a vida esteja aonde estiver…adorei!!!

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