Um vassalo feliz

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“Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.”

Álvares de AzevedoSpleen e Charutos, capítulo 3, Vagabundo

Já fui rei. Minhas terras se estendiam até onde os olhos da imaginação conseguiam enxergar. Soberano, não era uma questão de reconhecimento: como toda monarquia, era de direito meu, sem contestações. Rei é rei, e pronto. Claro que reis nascem, não tem isso de geração espontânea, mas qualquer vassalo já nasce sabendo quem é seu rei. Inquestionável. Se o rei morre antes do vassalo, vem outro, mas impávido da mesma forma. Inquestionável.

Construí territórios, expandi o reinado. Precisei trocar de trono por não caber tanto ouro e ornamento em meu pescoço e braços. Sem falar no peso da coroa. Sem ninguém questionar.

Porém, o peso do ouro não era cotado na bolsa de valores. Não havia lastro para meu ouro e pedras preciosas. Poeta e lúdico, já cheguei a contar uma história que aconteceu comigo, em uma mesa de bar, sendo desmentido na mesma hora por meu irmão: “Gá, isso aconteceu comigo.” Não foi maldade ou querendo roubar os créditos, mas histórias e reinos se misturam na minha cabeça. Benção e maldição, mas falo sobre isso outra hora.

E fui questionado. Dos que me dirigiram perguntas, uma única pessoa vale a pena mencionar: eu mesmo. Fui à guerra armado de perguntas, questionamentos que me levaram a desafios colocando meu reino à prova. E ele se esvaiu, como fumaça de fósforo recém-apagado. Um sopro que dissipa de forma suave, mas impávida. Inquestionável. Isso sim não tem como duvidar: você vê a fumaça se desfazendo, desaparecendo. Ninguém precisa te contar, é visível.

E invisível fiquei. Ou procurei ficar. Quando se perde um reino, para que terras correr? Mas era um reinado só meu, criado por mim, uma pátria exclusiva, só minha. Mas é isso, quis me esconder de mim mesmo. Pela primeira vez desci do trono e me olhei no reflexo das joias da coroa. Porém, não eram joias. Eram pequenas pedras, aparentemente sem valor, mas parte de mim. O que sobrou depois da fumaça se dissipar. Mas eram minhas. Aquelas pedrinhas eram eu, e estavam no meu caminho.

Mas não quis retirá-las: não eram tropeço, tampouco obstáculo. Eram pequenas e eram minha base. Podia fazer o que quisesse com elas. Descobri meu reflexo nelas e me encarei. A princípio não foi legal. Eu era rei, cacete. O que seria agora? Bem… eu seria o que eu quisesse.

Com as pequenas pedras, porém sólidas, comecei a construir algo meu. Sem fumaças, sem divagações. Deixo os sonhos e a imaginação para o que faço, não mais para quem sou ou quero ser. Com pequenas pedras, ergui uma construção humilde, longe de ser um castelo. Nem sei se quero castelos. A intenção não é essa. A intenção é construir algo meu, de verdade, por menor que seja, mas real.

Hoje consigo ser mais do que pedrinhas que me refletem. Sou menos rei do que já fui, mas pelo menos sou feliz, de verdade. Um vassalo feliz. É possível.

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6 Respostas para “Um vassalo feliz

  1. nhoinnnnn
    que lindo de viver, Gabo!!!
    tks

  2. EBA!

  3. cara, de onde vem isto ou tudo isto?! bom, muito bom…
    iria selecionar e destacar uma parte – “qualquer vassalo já nasce sabendo quem é seu rei. Inquestionável”, “Hoje consigo ser mais do que pedrinhas que me refletem. Sou menos rei do que já fui, mas pelo menos sou feliz, de verdade. Um vassalo feliz. É possível” – mas não, qualquer tentativa de extração, seria uma mutilação. Ou tudo, ou nada. Bom.

  4. Profundas reflexões…e você de pedrinha em pedrinha vai se tornando um escritor vassalo e feliz…dos três o que mais gosto é de te ver feliz!!!

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