Arquivo da categoria: 30 segundos

Um ótimo título pro seu post

– Ô Miranda, vem cá. Você conseguiu uma matéria especial, grande.
– Sério? Faz 10 anos que eu queria.
– Pois é. E ainda vai ser meio gonzo… você vai ser a própria matéria.
– Ta de sacanagem.
– Não. A gente quer que, a partir de hoje, sexta-feira, você viva como essa galera nova aí, testando novas coisas. Você não precisa mais vir pra cá, faz o que quiser do teu dia. Também não tem mais vínculo com a gente, então não vai ter mais salário também. Mas isso tudo faz parte da pauta! Cria um blog, abre uma página de textos no Facebook, o que você quiser. Conta dos seus dias, as dificuldades, a descoberta pessoal, tudo isso que o pessoal posta nesses sites, blogs aí, sei lá. E relaxa: é sem deadline, não precisa marcar nenhuma data pra entregar esse texto. É a pauta que você sempre quis!
– Cara, eu to demitido?!
– Pronto, taí. Você já tem um ótimo título pro teu post.

Medo

love

“Por que tenho medo de dançar, eu que amo a música e o ritmo e a graça e a canção e o riso? Por que tenho medo de viver, eu que amo a vida e a beleza da carne e as cores vivas da terra e o céu e o mar? Por que tenho medo de amar, eu que amo o amor?”

– Eugene O’Neill, em “O Grande Deus Brown”

Leon

Estou tocando um projeto na agência de um blog de cores. Tudo que é colorido tem feito com que minha cabeça muitas vezes só pense nisso.

Estava entrando no metrô quando vi esse senhor, com uma baita camisa azul. Com 82 anos, Seu Leon falou que havia escolhido aquela peça por que sabia que o tempo iria virar (com razão, já que era perto de 10h e, desde 8h, já tinha feito frio e calor uma três vezes, alternadamente).

Disse que era aposentado e quando perguntei se ele tinha email, percebi na hora que são daquelas coisas que a gente pensa “Claro que não”, mas vai que, né? Ele não tinha email. Perguntei se ele sabia o de alguém, para eu mandar a foto pra ele, mas também nada.

Por isso o post. Para ficar aí, mesmo que o próprio Seu Leon não veja. Não foi uma grande história, ou uma excelente foto, mas gostei do sorriso sincero dele e de ter permitido que eu o fotografasse.

Estou me dando essa liberdade, de registrar coisas que não precisam ser grandiosas ou extraordinárias: basta emocionar. Por enquanto, tem sido bom.

(Outras fotos da cidade e do dia a dia, de coisas que inspiram ou emocionam você encontra no 1xdia. A ideia inicial era ter uma foto por dia – por isso o nome -, mas já assumi que não lembro de postar diariamente. Mas sempre tem algo novo, fica o convite: http://1xdia.tumblr.com)

Eram esperadas 90 mil pessoas

Quando tive pela primeira vez a ideia de perguntar a alguém na rua  se já tinham agradecido o trabalho que estava fazendo foi também quando decidi começar a perguntar com o próximo que encontrasse, pois não tive coragem de fazer com aquele.

Era um PM, caminhando. A verdade é que na adolescência passei a vê-los como inimigos, mas, no início, em um nível como extensões dos bedéis do colégio. Não demorou para que fossem temidos como ameaças. Por isso hesitei e preferi falar primeiro com o CET.

Perguntei ao Cabo Dorr, que estava próximo a uma das entradas do estádio do Morumbi, quantas pessoas já tinham agradecido a equipe ali pelo trabalho que faziam desde 14h (meu relógio marcava 18h03): “Vish, quase nada…”
– Umas cinco?
– Ah, menos…
– Três?
– Menos…
– Duas… uma?
– Nenhuma.

(Eram esperadas 90 mil pessoas.)

Foi simpático o tempo todo. Os colegas, enfileirados ao lado, interagiram e agradeceram quando os cumprimentei pelo trabalho. Inesperado, não soube como reagir a um sorriso vindo de um policial militar. Aquilo desconcertou-me e só consegui agradecer, apertando a mão do Cabo Dorr e inaugurando um novo ciclo de agradecimentos nessa empreitada.

Só para não deixar a gente entrar

Dessa vez foram dois garis. Perguntei a eles quantas pessoas agradecem o trabalho que fazem. “Vish, vou te dizer que de 20… uma? Nem isso. É muito pouco”.

– Tem gente que desvia da gente, até.
– Como assim?
– A gente vem varrendo a rua e tem gente que quando vê de longe, atravessa a rua, desce da calçada, mas não passa do nosso lado.
– Isso sem contar quem passa e faz questão de mostrar que está tampando o nariz, para não sentir o cheiro do carrinho.
– E para usar banheiro, então? Nossa, muitos bares, muitos mesmo, dizem que o banheiro ta quebrado, que não funciona. Só para não deixar a gente entrar.
– Rapaz… é difícil, viu?

Lembrei de uma matéria que fiz, para o jornalzinho da faculdade, sobre a profissão de garis. Na época (por volta de 2004/2005) o salário deles era de R$ 450. Sempre achei que fosse difícil, só não imaginei que podia ser pior ainda.

Agradeci o trabalho deles, apertei suas mãos desejando um bom dia e continuei.

Para cada agradecimento tem alguém xingando a minha mãe

20h30, Teodoro Sampaio x Dr. Arnaldo. “Você é a primeira pessoa que converso assim hoje, sem ser pelo telefone”. Segundo Henrique, ninguém nos carros para pra conversar com ele. “Dos munícipes, o pessoal de carro? Ih, sempre com muita pressa, né? Mas os pedestres são os que mais agradecem, principalmente os mais velhos. Gente educada, sabe?”

Esse é o marronzinho (apelido carinhoso para os guardas da CET em São Paulo) e a pergunta foi: Quantas pessoas agradecem o que você faz?

“Olha, se você chega em casa e tem um carro na frente da sua garagem, e eu multo, resolve pra você? Não, mas se eu vou e guincho, você vai me adorar e me agradecer bastante. Mas imagina que é sexta. E o cidadão do carro guinchado? Só vai pegá-lo na segunda, e ainda pagando uma grana. Então eu diria que para cada agradecimento tem alguém xingando a minha mãe”.

Sempre atento aos carros que passam, ao semáforo que fecha, aos pedestres que atravessam, comenta: “Olha aquele motorista ali, por exemplo, falando ao celular. Eu poderia autuá-lo, e ele me xingaria. Mas, de onde estou vendo, ele só está segurando o celular, me viu e disfarçou, e nem conseguiver a placa dele. Então não tem como dar essa multa. Mas ele sabe disso? Se voltasse aqui, daria para agradecer, mas isso não vai acontecer”.

Henrique é um dos responsáveis pela área 2 da cidade. Ele conta que a Companhia de Engenharia e Tráfego divide São Paulo em 6 zonas. “Ta vendo esse número 2 aqui, no início do código da moto? Eu trabalho da Major Natanael pra cá, Teodoro, Sumaré, Heitor… [A Maj. Natanael é aquela que desce da Dr. Arnaldo para o Pacaembu]. Então não sei o que está acontecendo com os semáforos do Jardins, que não funcionam. Ali é a zona 1. Mas também sou um daqueles que levanta caminhão tombado na Marginal Tietê, sabe? Então, aí o cara do caminhão agradece bastante a gente, mas fica a Marginal toda atrás me xingando”.

Eu já tinha feito a mesma pergunta, sobre as pessoas agradecerem o trabalho, para outro guarda da CET, na Heitor Penteado, próximo ao metrô Vila Madalena. Esse estava mais sério, ajudando a organizar o cruzamento, com o semáforo apagado. Quando ouviu a pergunta, abriu um sorriso: “Cara… boa pergunta. Acho que nem 0,5% dos carros agradecem. Muito pouco, né? Fazer o que?”

Fiz questão de agradecer o trabalho que ele estava fazendo ali, “Muito bom”, e segui para casa.

Pretexto

João tem 33 anos e mora no Jd Irene, o mesmo bairro do Cafu, lembra? 100% Jd Irene. Ele estava varrendo a calçada de um dos prédios da rua e, a princípio, não queria muito que eu fizesse a foto dele. Ficou desconfiado, perguntou pelo menos três vezes “Mas tá tirando as fotos por que? Pra que?” e foi difícil dar uma resposta que o convencesse.

Desisti de tentar persuadi-lo com uma resposta que pudesse flexibilizar sua vontade e simplesmente fui sincero: Só estou tirando fotos do pessoal do bairro. Pra mim. Por nada. Não sei.

“Não sei.” Mentira. Quando comecei a fotografar essa galera do bairro achei que dizer “Estou fazendo fotos do pessoal do bairro, posso fazer uma sua?” fosse o pretexto para conseguir os cliques. Descobri que os próprios cliques é que são um pretexto que uso para conhecer mais dessas pessoas que vejo quase todo dia mas não sei quem são, nem o nome sei.

Esse aí de cima é o João, 33 anos, do Jd Irene, que ficou intrigado por eu usar uma câmera de filme e também pelo fato de ainda existir quem espere dias para ver como ficou uma foto.