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Por seu sorriso

Não acho que era uma questão de tristeza ou de não ser divertida. Ela parecia ter seus momentos de felicidade, como muita gente consegue em diferentes histórias; e era querida, uma presença sempre bem-vinda. Não consegui entender ainda o motivo, mas nunca vi uma gargalhada dela e, quando pensando sobre isso, não conseguia imaginá-la gargalhando.

Mas sorria. O intento de todos os conhecidos — uma vez apresentados a seus lábios que formavam um arco ao contrair um pouco os olhos enquanto sua pele na maçã do rosto ficava mais rosada, suas pupilas brilhando de excitação e emoção, mirando em algo que poucos podiam ver, mas percebiam refletidos em seu sorriso — o intento de todos era viver por esse momento, por seu sorriso.

Ainda assim, o desprendimento de gargalhar, sem controle de si ou preocupação com o barulho, despretensiosamente se entregando ao momento que quebra protocolos e a poesia educada — já que esse tipo de estouro poucas vezes acontece com classe ou graça e conversa mais com a prosa — ainda assim não era possível visualizá-la nesse abrupto gargalhar.

Por isso, por toda essa não-possibilidade de algo, parecia faltar algo em si, que a completasse, que a fizesse relaxar e esquecer de si, por alguns segundos. Talvez seja isso. Só se permite gargalhar quem esquece de si, e isso ela não conseguia. Nem sabia que não conseguia, mas também não tive coragem de contar que era preciso ser mais leve para não pensar em si, e como poderia cobrar isso dela, que tanto havia sofrido?

Mas sorria. Sorria de forma bela e sincera, principalmente quando o sol saía e aquecia sua face. Era involuntário, um sorriso não percebido, desses que escapam furtivamente, com estripulia, uma fuga sem prisão, fugir apenas pela brincadeira de sair. Assim era seu sorriso, e o sol vivia por esse momento, com o intento de seu sorriso.

E conseguia.

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Um corvo que leve para casa os meus ossos

Um livro reúne cartas e diários escritos por jovens durante a 2ª Guerra Mundial. Um dos relatos se passa próximo ao dia de meu aniversário, exatamente 40 anos antes de eu nascer. Veja um trecho publicado na Folha:

3-5.set.1943Dois de nós recebemos um tapa na cara e fui me deitar rangendo os dentes de dor. Eles estão sempre rindo de nós, acham que somos sujos e incultos. O capataz espancou um sujeito porque assoou o nariz no chão. Sua risada e suas zombarias estão me matando. Estou começando a me detestar e a me perguntar se sou realmente um porco, como eles dizem. Só queria estar de volta a minha boa e velha casa, junto aos dois salgueiros e ao lindo e frondoso álamo. Nunca mais voltarei a ver minha casa, nem mesmo haverá um corvo que leve para lá os meus ossos.
VASILY, 18, russo

A matéria diz: “Apenas três dos garotos que têm seus textos compilados no livro sobreviveram até o fim da guerra. Por isso, alguns relatos são interrompidos de uma forma abrupta”. Ao ler isso, imaginei alguém falando comigo, contando sua história de vida, desde o início até àquele ponto e, do nada, ficando calada. Não cai, não explode, só interrompe uma frase no meio dela.

Seus olhos, que antes se fixavam em mim, não se mexem, mas também não me olham mais, apesar de apontados para mim. Descubro, nesse momento, que o brilho dos olhos é que dão sua direção. Por isso eles não me atravessam, tampouco param em mim… esses olhos já não estão mais aqui, se foram. A história foi interrompida enquanto contada e eu nunca saberei o final dela. Pois, embora tenha terminado, não foi seu fim. Não era pra ser esse fim… não esse.

Não conhecerei suas histórias, não saberei que apesar de tudo sobreviveu, pois isso não aconteceu. Nem mesmo saberei de seus sonhos. Eles se foram. E nem seus sonhos conhecerão a vida.

Maria Helena, a namorada, estava cansada da zona

Primeiro foi o iPod. Tinha a esperança de ter deixado em alguma calça que foi pra lavar, mas como também não achava a calça, perdeu as esperanças. Aos poucos a bagunça de casa virou confusão. Maria Helena, a namorada, estava cansada da zona. “Luis Felipe, é sério. Você precisa dar um jeito nessa casa. Ontem mesmo tropecei em um cobertor na cozinha, meu chinelo caiu e quando olhei, já tinha sumido. Sério”.

Mas Luis Felipe não ligava. Mesmo sem iPod ou o chinelo de Maria Helena. Ele dizia que ligava, mas lembrou de sua mãe dizendo que, se você se importa, você faz algo. Então começou a assumir que não ligava mesmo.

Um dia, Maria Helena não apareceu. Luis Felipe ligou e ouviu o celular dela tocar no meio da bagunça. Foi atrás do barulho, que parecia estar em um cômodo diferente cada vez que tocava. Desistiu.

Uma semana se passou, Luis Felipe já conformado com a ausência de Maria Helena, quando um dia viu seu iPod no meio da sala. Ao tentar pegá-lo, o iPod fugiu dele. Luis Felipe foi atrás, tentou pegá-lo novamente, e viu o mp3 player escapar novamente. Descobriu Maria Helena, sentada no quarto, após uma parede de bagunça, em um canto tão arrumado que Luis Felipe não soube reconhecer o que era “organização”. Achou que estava dentro de um quadro cubista.

– Mas, Maria Helena! Você sumiu! Onde estava?
– Você me perdeu, Luis Felipe. Eu estava aqui o tempo todo.

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Foto: Daigo Oliva

Fotógrafos de/no Instagram

Alguém sempre vai reclamar, principalmente na internet. Uma recente foi a abertura do Instagram para Androids, mas eu já ouvia reclamações sobre a rede social de fotografias: “É… agora todo mundo é fotógrafo com o Instagram”.

Comecei a reparar que não era nenhum fotógrafo (dos que conheço) reclamando. Por isso, perguntei aos que sigo no Instagram a opinião deles: existe diferença entre fotógrafo de Instagram e fotógrafo que está no Instagram?

Daigo Oliva (@daigooliva)
Mano, eu nem penso nisso… quanto mais as pessoas fotografarem, mais legal. Basicamente é isso.

Alexandre Schneider (@aleschneider)
Acho que fotógrafo de Instagram é o que usa essa ferramenta como câmera fotográfica, exclusivamente. Fotógrafo no Instagram é o que usa a ferramenta como publicador… também reproduz imagens feitas em outros formatos de arquivos.

Acho que, além de fotografar, o Instagram é um grande publicador que pode divulgar seu trabalho.

Nina Jacobi (@ninajacobi)
Falam que qualquer um vira fotógrafo com o Instagram, né? Que bobagem. Isso é dor de cotovelo. As fotos saem bonitas, você aplica um filtro e fica bacana. Mas isso é uma coisa, viver de fotografia é outra!

Luiz Maximiano (@luizmaximiano)
Cara, é tudo fotografia. Só muda a câmera.

Alisson Louback (@alissonlouback)
Do meu ponto de vista a pergunta está errada, porque existem muitos tipos de fotógrafos e cada um interage com a câmera de uma forma. O tempo de cada um também é diferente… um fotógrafo de comida é diferente de um fotojornalista. Quando parei pra pensar na questão fotógrafo com iPhone parei na questão “Que fotógrafo?”

Qualquer um pode ser fotógrafo, mas não depende do Instagram. Qualquer um pode ser fotógrafo, é só ter uma câmera na mão. Isso não começou agora. Acho que na época do Fotolog isso já tinha mudado.

A diferença é a mesma do amador e profissional: uma das diferenças entre eles é que o profissional consegue fazer um bom trabalho mesmo quando não está afim. Tem gente que tem Instagram patrocinado, como um blog, fotolog… e tem gente que fica postando foto do céu de graça.

Uma coisa legal de se pensar é como cada tipo de fotógrafo lida com a camera portátil/iPhone no dia a dia. Um cara que passa o tempo inteiro dentro do estúdio e o cara que está na rua direto.

Leon

Estou tocando um projeto na agência de um blog de cores. Tudo que é colorido tem feito com que minha cabeça muitas vezes só pense nisso.

Estava entrando no metrô quando vi esse senhor, com uma baita camisa azul. Com 82 anos, Seu Leon falou que havia escolhido aquela peça por que sabia que o tempo iria virar (com razão, já que era perto de 10h e, desde 8h, já tinha feito frio e calor uma três vezes, alternadamente).

Disse que era aposentado e quando perguntei se ele tinha email, percebi na hora que são daquelas coisas que a gente pensa “Claro que não”, mas vai que, né? Ele não tinha email. Perguntei se ele sabia o de alguém, para eu mandar a foto pra ele, mas também nada.

Por isso o post. Para ficar aí, mesmo que o próprio Seu Leon não veja. Não foi uma grande história, ou uma excelente foto, mas gostei do sorriso sincero dele e de ter permitido que eu o fotografasse.

Estou me dando essa liberdade, de registrar coisas que não precisam ser grandiosas ou extraordinárias: basta emocionar. Por enquanto, tem sido bom.

(Outras fotos da cidade e do dia a dia, de coisas que inspiram ou emocionam você encontra no 1xdia. A ideia inicial era ter uma foto por dia – por isso o nome -, mas já assumi que não lembro de postar diariamente. Mas sempre tem algo novo, fica o convite: http://1xdia.tumblr.com)

Só para não deixar a gente entrar

Dessa vez foram dois garis. Perguntei a eles quantas pessoas agradecem o trabalho que fazem. “Vish, vou te dizer que de 20… uma? Nem isso. É muito pouco”.

– Tem gente que desvia da gente, até.
– Como assim?
– A gente vem varrendo a rua e tem gente que quando vê de longe, atravessa a rua, desce da calçada, mas não passa do nosso lado.
– Isso sem contar quem passa e faz questão de mostrar que está tampando o nariz, para não sentir o cheiro do carrinho.
– E para usar banheiro, então? Nossa, muitos bares, muitos mesmo, dizem que o banheiro ta quebrado, que não funciona. Só para não deixar a gente entrar.
– Rapaz… é difícil, viu?

Lembrei de uma matéria que fiz, para o jornalzinho da faculdade, sobre a profissão de garis. Na época (por volta de 2004/2005) o salário deles era de R$ 450. Sempre achei que fosse difícil, só não imaginei que podia ser pior ainda.

Agradeci o trabalho deles, apertei suas mãos desejando um bom dia e continuei.

É sempre assim


Digo que estou cansado, querendo ir dormir e, manhosa, você me diz “Aaaahhhh, fica comigo, estou sem sono…”, mesmo que diga isso bocejando.

Mas OK. Seja mais um episódio de House ou o filme que está começando na Tela Quente, com o Nicolas Cage, a Jessica Biel dando mole para ele e a Julianne Moore fazendo papel de agente federal. Não compro muito o filme, do mesmo jeito que não compro quando ouço “Claro que vou aguentar até o final, Gá”.

Hoje foi “Eu só queria que o sono viesse, sabe? Não vou dormir, estou sem sono… por isso estou dizendo que queria que ele viesse”. Às vezes são 15 minutos, outras, meia hora. Mas é inevitável: você não vai aguentar acordada e eu sempre sei disso.

É quando começo a comentar algo sobre o que está passando e não ter mais resposta. É quando me mexo e só ouço um resmungo, como que reclamando “Pare quieto, estou dormindo”, esparramada no meu colo. É claro que você está dormindo. Eu sempre sei que você vai me abandonar no meio do filme e que terminarei assistindo sozinho, com o sono que já foi embora.

Mas gosto de me enganar e acreditar nisso, apenas para que você adormeça no meu colo (sei que esse é o seu melhor sono, melhor até do que na cama com travesseiro) e simplesmente poder tocar seu rosto: “Pequena… vamos?” e dar risada, dizendo que mais uma vez você disse que ficaria acordada… mas não ficou.

E ouço, mais manhosa “Você não quer que eu durma bem, né? Você não quer minha felicidade” enquanto arrasta os pés para o quarto.

Melhor assim.