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Um ótimo título pro seu post

– Ô Miranda, vem cá. Você conseguiu uma matéria especial, grande.
– Sério? Faz 10 anos que eu queria.
– Pois é. E ainda vai ser meio gonzo… você vai ser a própria matéria.
– Ta de sacanagem.
– Não. A gente quer que, a partir de hoje, sexta-feira, você viva como essa galera nova aí, testando novas coisas. Você não precisa mais vir pra cá, faz o que quiser do teu dia. Também não tem mais vínculo com a gente, então não vai ter mais salário também. Mas isso tudo faz parte da pauta! Cria um blog, abre uma página de textos no Facebook, o que você quiser. Conta dos seus dias, as dificuldades, a descoberta pessoal, tudo isso que o pessoal posta nesses sites, blogs aí, sei lá. E relaxa: é sem deadline, não precisa marcar nenhuma data pra entregar esse texto. É a pauta que você sempre quis!
– Cara, eu to demitido?!
– Pronto, taí. Você já tem um ótimo título pro teu post.

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Por seu sorriso

Não acho que era uma questão de tristeza ou de não ser divertida. Ela parecia ter seus momentos de felicidade, como muita gente consegue em diferentes histórias; e era querida, uma presença sempre bem-vinda. Não consegui entender ainda o motivo, mas nunca vi uma gargalhada dela e, quando pensando sobre isso, não conseguia imaginá-la gargalhando.

Mas sorria. O intento de todos os conhecidos — uma vez apresentados a seus lábios que formavam um arco ao contrair um pouco os olhos enquanto sua pele na maçã do rosto ficava mais rosada, suas pupilas brilhando de excitação e emoção, mirando em algo que poucos podiam ver, mas percebiam refletidos em seu sorriso — o intento de todos era viver por esse momento, por seu sorriso.

Ainda assim, o desprendimento de gargalhar, sem controle de si ou preocupação com o barulho, despretensiosamente se entregando ao momento que quebra protocolos e a poesia educada — já que esse tipo de estouro poucas vezes acontece com classe ou graça e conversa mais com a prosa — ainda assim não era possível visualizá-la nesse abrupto gargalhar.

Por isso, por toda essa não-possibilidade de algo, parecia faltar algo em si, que a completasse, que a fizesse relaxar e esquecer de si, por alguns segundos. Talvez seja isso. Só se permite gargalhar quem esquece de si, e isso ela não conseguia. Nem sabia que não conseguia, mas também não tive coragem de contar que era preciso ser mais leve para não pensar em si, e como poderia cobrar isso dela, que tanto havia sofrido?

Mas sorria. Sorria de forma bela e sincera, principalmente quando o sol saía e aquecia sua face. Era involuntário, um sorriso não percebido, desses que escapam furtivamente, com estripulia, uma fuga sem prisão, fugir apenas pela brincadeira de sair. Assim era seu sorriso, e o sol vivia por esse momento, com o intento de seu sorriso.

E conseguia.

Mas aí tem isso, d’eu querer fumar meu cigarro em paz no fim do dia

Ao acender o cigarro, percebo como o ambiente já está cheio de fumaça. Meu impulso é reclamar, já que ela me incomoda, e muito.

Comecei a fumar recentemente. Sempre fui desses ativistas cheios de argumentos que provam que não é legal fumar cigarros. Os motivos são vários, comuns, clichês e, por isso, verdades. Mas também vi os benefícios que me traziam. Minimizar complicações, um refúgio e fuga rápida, além de tantos outros clichês de quem não consegue deixar o cigarro.

Mas aí tem isso, d’eu querer fumar meu cigarro em paz no fim do dia, no bar que costumo frequentar, lugar gostoso, mas a fumaça de todos os outros me incomodarem. Queria que o dono do estabelecimento desse um jeito nisso, sério. Tem gente demais fumando. Ficou fácil, sabe? Qualquer um pode chegar com seu cigarro, ainda mais com incentivo à indústria, né? Reclamo da fumaça de cigarro, mas o que me incomoda são os outros. O meu? É meu, oras. Levo para onde quiser, uso do jeito que quiser.

Agora faça um exercício e troque o cigarro por carros. Eu não fumo, nem tenho carro. Mas acho engraçado (só que não) que as pessoas que mais reclamam do trânsito são as que fazem parte do próprio trânsito. Saem de seus carros xingando a cidade, a infraestrutura, as vias, o prefeito, os outros motoristas e a quantidade de carros, tirando da conta seu próprio carro.

Claro que a cidade precisa melhorar. Claro que o prefeito não é dos melhores (e um dos piores). Claro que a nossa cultura do asfalto blablablabla.

Mas acho legal quem: 1) Evita reclamar 2) Evita ter carro. Fora isso, você não tem razão. Você é o trânsito.


foto: Daigo Oliva

Maria Helena, a namorada, estava cansada da zona

Primeiro foi o iPod. Tinha a esperança de ter deixado em alguma calça que foi pra lavar, mas como também não achava a calça, perdeu as esperanças. Aos poucos a bagunça de casa virou confusão. Maria Helena, a namorada, estava cansada da zona. “Luis Felipe, é sério. Você precisa dar um jeito nessa casa. Ontem mesmo tropecei em um cobertor na cozinha, meu chinelo caiu e quando olhei, já tinha sumido. Sério”.

Mas Luis Felipe não ligava. Mesmo sem iPod ou o chinelo de Maria Helena. Ele dizia que ligava, mas lembrou de sua mãe dizendo que, se você se importa, você faz algo. Então começou a assumir que não ligava mesmo.

Um dia, Maria Helena não apareceu. Luis Felipe ligou e ouviu o celular dela tocar no meio da bagunça. Foi atrás do barulho, que parecia estar em um cômodo diferente cada vez que tocava. Desistiu.

Uma semana se passou, Luis Felipe já conformado com a ausência de Maria Helena, quando um dia viu seu iPod no meio da sala. Ao tentar pegá-lo, o iPod fugiu dele. Luis Felipe foi atrás, tentou pegá-lo novamente, e viu o mp3 player escapar novamente. Descobriu Maria Helena, sentada no quarto, após uma parede de bagunça, em um canto tão arrumado que Luis Felipe não soube reconhecer o que era “organização”. Achou que estava dentro de um quadro cubista.

– Mas, Maria Helena! Você sumiu! Onde estava?
– Você me perdeu, Luis Felipe. Eu estava aqui o tempo todo.

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Foto: Daigo Oliva

El mar

Antes que el sueño (o el terror) tejiera mitologías y cosmogonías, antes que el tiempo se acuñara en días, el mar, el siempre mar, ya estaba y era.

Meu smartphone tem marcas de chocolate na tela

Logo eu, que tenho medo de altura. Eu que, tantas vezes, dei bronca nas pessoas por ficaram próximas às janelas e seus parapeitos. Parece que meu coração vai pular do meu peito. Por que é mesmo que estou aqui? Ah sim, aquela dívida. Não vão me deixar em paz. Mas não tenho dinheiro. A fatura do meu cartão de crédito vem com R$ 3 mil e eu recebo R$ 2,5 mil. Quer dizer, recebia. Demitido não recebe. Pense numa matemática. Recebo o salário e, ao contrário das outras pessoas que pagam suas contas e vêem quanto sobrou para passar o mês, já fico com uma dívida de R$ 500. É o quanto ficou pra pagar o mês que vem. Mais os juros em cima desses R$ 500. Ou seja, minha dívida só aumenta. Pergunta se meu salário aumenta na mesma proporção que os juros comem meu cheque especial?

Cheque especial… nem existe mais. Estou velha mesmo. Ganhando pouco já não conseguia sair do monstro que o cartão de crédito criou, imagina agora, desempregada? É por isso que estou aqui. Como forma de protesto. Para mostrar como os bancos, o mercado e a sociedade estão pouco se lixando para mim. É só ligar pro 190 e dizer “Estou no 23º andar e vou pular” que aparece um monte de gente ‘preocupada’ comigo, dizendo pra eu não pular. OK, e depois que me ‘salvarem’? Quem paga as contas? E ainda esse bando de adolescente babaca lá embaixo, gritando “Pula! Pula! Pula!”. Maldito horário que fui escolher, bem na hora da saída desse colégio… Mas vou aproveitar o protesto e me vingar também. Tá vendo aquele gordinho ali, de tênis importado e com os dedos sujos de chocolate, escrevendo alguma coisa no celular? Pois é. Estou mirando nele.

Mal sabia

Atravessou a rua com seu passo tímido e subiu na construção como se fosse sólido.

Mal sabia o engenheiro que, ao descer, nada mais restaria. Foi assaltado no ponto de ônibus. A ladra, para formar o clichê completo, não roubou apenas seu cordão de ouro e celular. Levou também seu coração. Com a faca encostada na barriga, o engenheiro mal respirava. Ela colocou as pernas no colo dele. Ah, que pernas. Mais bonitas e torneadas do que de muitas mulheres dentro da lei. Quando recebeu um beijo no pescoço e aquele arrepio subiu pelas costas até deixar sua cabeça pinicando, sentiu o ímpeto de derrubá-la, rendê-la, agarrá-la e fazer amor com ela, ali no meio da avenida mesmo. Mas ela tinha um comparsa. Há, sempre, os comparsas. Esse, é claro, não gostou do beijo dado. Aquele, por outro lado, não conseguia ver mais nada direito. A visão turvou. Pensou que estava cego de amor, mas seus óculos de grau haviam sido roubados.
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Texto baseado nessa notícia: “Assaltante beija vítima durante roubo no Espírito Santo.”