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Quase santistas

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Neymar é o Tupãzinho do Santos dessa geração. OK, pode ser exagero meu, mas aquele gol do Talismã da Fiel na final do Campeonato Brasileiro de 1990 contra o São Paulo, dando o título ao Corinthians, foi um dos motivos que sedimentou minha torcida pelo alvinegro da Zona Leste.

O fato é que há órfãos de Neymar por aí, nesse exato momento, alguns nem sabendo que o guri foi comprar cigarros ali no Camp Nou e não volta mais [pelo menos nos próximos 10 anos]. Claro que alguns já foram tão impactados que não mudarão de time, mas há os que ainda estão em formação e se apoiavam na figura da alegria e ousadia para torcer pelo alvinegro praiano. Eis que surge uma brecha a ser preenchida no coração da gurizada.

Fosse eu do marketing dos clubes paulistanos, começaria hoje mesmo, segunda-feira de frio, uma ação intensiva na saída dos colégios da capital, aproveitando o feriadão prolongado para agregar torcedores. Ficam algumas dicas aos times, para abordarem pequenos órfãos [quase] santistas:

Corinthians
Não estamos na Libertadores, mas estamos no Brasil. Você já conhece o Pacaembu: agora você pode conhecê-lo lotado com a maior torcida da cidade. [Também vestimos branco e preto, sinta-se em casa].

Palmeiras
Estamos na série B, mas nossos jogos têm horários que se encaixam ao seu perfil. Aproveite que você não tem aula de sábado e peça para seus pais te levarem nos jogos de sexta!

São Paulo
Er… serve o Ganso?

Portuguesa
Não compramos o Neymar, mas também não compramos o Ganso.

______

colaboração [“Portuguesa”]: Gui Louback

foto: reprodução

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Vamo meu Timão

Vamo, sem o s. É assim que se canta. Não importa seu nível social e gramatical, é assim que todos cantamos. Professores, mestres e doutores cantam assim no Pacaembu, já ouvi. É um dos gritos mais bonitos do Corinthians dos últimos tempos. Declara o louco amor que sentimos pelo time, juntos, da torcida que tem um time, que se explica porque grita até ficar rouca e pede: “Vamo, meu Timão. Vamo. Não para de lutar”. Por favor.

Não importa o resultado de hoje, entre Corinthians e Boca Juniors. (Mentira, claro que importa, mas vem comigo). A questão é que nosso grito não vai parar. Ganhando ou perdendo, não vamos parar de lutar, seja pelo que for. Afinal, somos uma nação ou não?

O PIB pode estar OK, mas a educação está capenga. A educação em tal estado está melhor, mas o saneamento básico ainda deixa a desejar. Não há mais favelas em determinada cidade, mas o índice de corrupção é o maior do estado. Uma nação sempre tem algo a melhorar. Sempre tem algo que não a deixa parar de lutar. Assim é o Corinthians.

Se ganharmos a Libertadores, teremos outras coisas a conquistar e melhorar. Sempre. Para mim, chegar a esse momento do campeonato já mostrou o que é possível, meio como em “Moneyball”. Vencer, é claro, todos queremos. Ah, como eu quero essa joça dessa Taça. Mas mesmo que vença, não quero ser o corinthiano satisfeito: “Pronto, missão cumprida”. Não é isso que a gente grita jogo a jogo, pô! “Vamo, não para de lutar”. Porque deveria aceitar, então, essa condição?

Nosso grito, nossa luta, vale para derrota e vitória. Se não soubermos disso, viveremos de fantasmas, sejam eles de coisas conquistadas ou desejadas, como os que já ganharam tantas Libertadores e Mundiais que se dão o direito de fazer troça conosco por algum tempo ainda. “Tudo bem que a gente não ganhou nada nos últimos 5 anos, a gente pode”.

Não, meu amigo corinthiano. A gente não pode, a gente não vai poder. Eu, pelo menos, não quero me dar esse direito. Quero a Libertadores, quero o Mundial, quero o Campeonato Paulista, o Brasileiro e a Copa do Brasil. E se um dia a gente ganhar tudo isso em um ano só, quero que no ano seguinte a gente faça de novo. E se a gente fizer isso por 10 anos seguidos, sempre vou querer um Corinthians que acredite em um time, não em um elenco. Podemos ter estrelas, desde que não sejam fundamentais para o nosso nome, para o nosso coração bater.

Se a gente para de lutar, a gente para de viver, para de cantar. E eu não quero isso.

Vamo, meu Timão.
Vamo.
Não para de lutar.
Por favor.

O melhor ainda estava por vir

Nosso primeiro jogo ‘bagaceira’ foi um Grêmio Barueri x Bragantino, na Arena Barueri, quando o time ainda era dessa cidade, antes de ir pra Presidente Prudente e, recentemente, voltar para o mesmo local de antes. Era uma partida da Série B do Brasileirão e, hoje, vejo que nada teve de bagaceira. O melhor ainda estava por vir.

Tudo começou quando eu era estagiário na Prefeitura de São Paulo e escrevia no Diário Oficial. Tinha uma coluna sobre pontos de referência na cidade e um dos lugares escolhidos foi a rua Javari. Hoje, mais velho, percebo que falei pouco da rua em si, e mais do estádio que ali se encontra: o Conde Rodolfo Crespi, o estádio do Juventus, que me apaixonou. Prometi a mim mesmo que voltaria ali um dia, para ver um jogo.

Sou corinthiano de nascença (faço aniversário no mesmo dia que o Timão), mas tenho um irmão palmeirense. Gostamos muito de ver futebol juntos, ainda que ele tenha dormido na final da Copa do Mundo (não o culpo, mas pô, era a final da Copa).

Depois de ir a um jogo da segundona, decidimos que estávamos preparados para a Copa Paulista. Foi contra o Votoraty (não, não é aquela empresa), e valia classificação, que o Juve deixou passar. Foi a primeira vez que um bandeirinha de fato me ouviu xingá-lo, bem como a mãe dele e esposa (na hora, supus que ele tivesse uma). Se bobear, até os cuspes que voaram enquanto eu gritava, ele sentiu na nuca.

Depois de ver um empate de 3 x 3 contra o Audax (ex-Pão de Açúcar, agora sim a empresa), voltamos no dia 24 de setembro, achando que seria o último jogo do Moleque Travesso da Mooca, ocasião contra o Taboão da Serra. A classificação para as oitavas-de-final parecia impossível, mas fomos prestigiar. Meu irmão, que já foi mais vezes à Javari, não acreditava. O Juve não tinha se portado assim em nenhuma outra partida, com jogadas armadas, toques pensados e até, quem diria!, uma estratégia. Ganhamos de 4 x 2 e nos classificamos com uma rodada de antecedência, já que o São Bernardo e Grêmio Osasco haviam perdido na rodada.

O fato é que já estou assim, falando em “ganhamos”, “nos classificamos” e conjugando os verbos na 1ª pessoa do plural. A maioria do jogos são tão feios que a gente só dá risada, nem passa raiva. É a torcida mais divertida que já vi na vida. Os jogos acontecem às 15h de sábado, horário perfeito pós-almoço, para comer um canolli do seu João de sobremesa e dar risada com a torcida mais grená do Brasil, com a maioria entre 20 e 40 anos. Um perfeito rolê, seja com amigos da cervejinha ou com a guria que tem medo de estádio.

A próxima meta minha e do meu irmão? Nos tornamos dirigentes do Juventus, só para bancarmos um clube que nos fez voltar a ter gosto de ir ao estádio e torcer para um time só pela diversão disso, esquecendo brigas em arquibancadas, medo da polícia ou passando raiva com conchavos, cartolas e emissoras, que não pensam no entretenimento ou no torcedor.

Como bom corinthiano, ainda sofro com as jogadas terríveis, mas o descarrego é mais eficiente, já que nossos gritos são ouvidos pelos jogadores. No último, por exemplo, escolhi o camisa 5 do Taboão para encher o saco. No intervalo do 1º tempo, ao sair de campo, ele ficou olhando para mim (já havia gritado muito com ele) e sei (vi, na verdade) que ouviu os berros: “Hoje você não joga mais, nem volta do vestiário, hein!” Ele voltou, mas desestabilizado. Só a Javari poderia proporcionar isso a mim. Viva o Moleque Travesso da Mooca.