Um corvo que leve para casa os meus ossos

Um livro reúne cartas e diários escritos por jovens durante a 2ª Guerra Mundial. Um dos relatos se passa próximo ao dia de meu aniversário, exatamente 40 anos antes de eu nascer. Veja um trecho publicado na Folha:

3-5.set.1943Dois de nós recebemos um tapa na cara e fui me deitar rangendo os dentes de dor. Eles estão sempre rindo de nós, acham que somos sujos e incultos. O capataz espancou um sujeito porque assoou o nariz no chão. Sua risada e suas zombarias estão me matando. Estou começando a me detestar e a me perguntar se sou realmente um porco, como eles dizem. Só queria estar de volta a minha boa e velha casa, junto aos dois salgueiros e ao lindo e frondoso álamo. Nunca mais voltarei a ver minha casa, nem mesmo haverá um corvo que leve para lá os meus ossos.
VASILY, 18, russo

A matéria diz: “Apenas três dos garotos que têm seus textos compilados no livro sobreviveram até o fim da guerra. Por isso, alguns relatos são interrompidos de uma forma abrupta”. Ao ler isso, imaginei alguém falando comigo, contando sua história de vida, desde o início até àquele ponto e, do nada, ficando calada. Não cai, não explode, só interrompe uma frase no meio dela.

Seus olhos, que antes se fixavam em mim, não se mexem, mas também não me olham mais, apesar de apontados para mim. Descubro, nesse momento, que o brilho dos olhos é que dão sua direção. Por isso eles não me atravessam, tampouco param em mim… esses olhos já não estão mais aqui, se foram. A história foi interrompida enquanto contada e eu nunca saberei o final dela. Pois, embora tenha terminado, não foi seu fim. Não era pra ser esse fim… não esse.

Não conhecerei suas histórias, não saberei que apesar de tudo sobreviveu, pois isso não aconteceu. Nem mesmo saberei de seus sonhos. Eles se foram. E nem seus sonhos conhecerão a vida.

Toda feia e malcuidada

parou

Ela é assim, toda feia e malcuidada. Em uma família à margem do que não é muito bem quisto, consegue ser a preterida. Não a procuram pra fazer matéria de final de ano ou Carnaval, nem mesmo as apelativas. Suja e caçoada, ninguém se apega a ela e não sei se é ela que não permite ou, justamente por não a procurarem, também não se esforça. Mas ontem a Barra Funda conseguiu arrancar um sorriso meu. Sei que não vale muito, mas também não sou fácil.

Desde que me mudei para a região, passei a utilizar mais sua estação de trem e metrô. Sua praça de alimentação é como abrir uma caixa de pizza sabor 32 queijos com cobertura de pipoca. As vésperas de feriados, e até mesmo algumas quintas e sextas-feiras, promovem auês em suas imediações dignos de uma Mumbai. São ônibus clandestinos estacionados do lado B da rodoviária, nada de pararem na avenida do Memorial. Eles ficam na saída dos ônibus “oficiais”, tendo como plataforma a calçada que se estende até o final da rua da Várzea, acompanhando a linha do trem e que fica de frente para a Record. Tem café, bolo de fubá, pão de queijo, leite quente, salgadinho, pilha, rádio e, claro, cigarros. Pilhas de Eight sendo vendidos nas barracas e descartados nos chãos.

Tem quem sinta repulsa por um ambiente assim, mas como um autêntico paulistano filho de migrantes, nascido e criado na cidade, sei que isso faz parte do show. Mas ninguém disse que seria uma comédia. A sujeira criada pela desordem e clandestinidade não ajudam a região, muito menos a própria estação da Barra Funda, que muitas vezes acaba sendo apenas um mal necessário no caminho de quem quer chegar logo a seu destino.

Mas ontem não. Ontem ela foi palco de um show mais bonito. Sei que estou personificando um amontoado de concreto para esse texto desde a primeira linha, mas em São Paulo as pedras dessa selva têm vida. Ninguém pode me dizer que as marquises de Pinheiros, por exemplo, não são a extensão folhosa de árvores frondosas que possuem o formato de pequenos predinhos e comércios da Teodoro. E a Barra Funda foi atuante nessa cena.

Meu ônibus passou em frente ao terminal, pela avenida. Dentro dele havia uma moça com uma cara um tanto quanto distante, melancólica. Fiquei triste com ela por alguns segundos, mas só por alguns segundos. Olhando pela janela, pude vê-la abraçada a uma mulher um pouco mais velha que ela. Fosse irmã, mãe, tia ou amiga: o abraço foi eterno. O ônibus partiu do ponto e, até onde pude acompanhar, elas continuaram abraçadas. Gosto de imaginá-las abraçadas ainda ali, tendo a Barra Funda como palco de algo tão raro e precioso quanto um abraço eterno.

É complicado

No fim da Linha Vermelha, quase na Dutra, o dia amanhecendo. Não há cena mais triste para se deixar o Rio. Você olha pelo retrovisor e lá está o sol, aparecendo por detrás do Galeão, sabendo que você não estará ali junto com ele na hora que passar o latão com mate e limão.

Felizmente, aquele tanto de concreto da Dutra nos faz esquecer as belezas naturais do Rio. Você já passou pela fase de negar que está deixando a cidade, teve raiva com o trânsito, negociou suas barganhas mentais [“Vou fazer mais bate-voltas ao Rio”], já ficou deprimido ao lembrar que não conseguiu realizar essas viagens tanto quanto prometeu e já aceitou o fato de estar na estrada para São Paulo.

Eis que a serra termina, você pronto pra mergulhar na segunda parte da estrada, pimpão e, ali na esquerda, uma placa simples, daquelas de só ter o nome da cidade e um flecha, indicando a direção. Sem falar sobre “Saída 18-B” ou quantos quilômetros faltam. Nada. Apenas:
<— Rio de Janeiro | São Paulo —>

E essa placa, rapaz… Essa placa é uma coisa difícil de explicar. É como se você fosse um adolescente que terminou aquele romance de verão, já estava voltando pra casa, dentro do carro e, no caminho, a guria está na calçada da rua onde você ficou, com um olhar menos triste e mais “É isso mesmo? Última chance…”

E lá está sua última chance de voltar ao Rio, você e sua esposa, mais nada, mais ninguém. Tudo o que vocês precisam está dentro do carro, faça as contas. Mas não. Dessa vez, não. Um dia, quem sabe. Quando você tiver a liberdade que procura. Quem sabe, naquele dia em que você estiver voltando sem precisar e puder ficar mais um pouco, não peço muito. Um dia, quando o sol for mais forte do que a garoa e os dias nublados, quem sabe. Um dia.

Hoje? Hoje eu só queria arrancar aquela placa dali. O que os olhos veem, a saudade sente.

Quem vai virar o jogo?

Fiquei pensando em um jeito de começar esse texto, com alguma analogia ou de onde veio a ideia, mas às vezes a melhor maneira para um início é ir direto ao assunto [desconsiderando, claro, essa minha introdução]: quando nos oferecemos para segurar a bolsa ou a mochila de alguém no ônibus achamos que estamos ajudando o mundo a ser um lugar melhor. Mas você acha isso mesmo? De coração? Pois eu não acredito.

Claro, existe uma pessoa ali do nosso lado, carregando o peso de seus acessórios e nossa ajuda possibilita que ela se segure melhor nas barras e se desequilibre menos, tirando um peso dos ombros e até ajudando o fluxo de passageiros no corredor. Mas por que a gente não se levanta e oferece nosso lugar? Por que a gente se contenta em segurar a sacola pesada e acha que isso é o suficiente? Não estamos fazendo nada de ruim, mas não estamos fazendo nosso melhor. E isso me incomoda.

Estamos satisfeitos em só fazer o mínimo esforço necessário para que a nossa ajuda não chegue a nos prejudicar. E toda vez que me ofereço para segurar a mochila de alguém, me sinto sujo. Pois sei que eu poderia ser melhor do que aquilo. Eu só não quero ser. No fundo, eu escolho não ser melhor.

E estou cansado disso. Cansado de me satisfazer com o suficiente para aliviar minha culpa, aliviar o peso da pessoa, mas não fazer tudo, exatamente tudo o que estava ao meu alcance para facilitar a vida da pessoa ou ajudá-la de forma completa. Apenas o necessário para não ter eu que ficar em pé; não ser eu a ficar incomodado, apertado e esbarrado no corredor. De que vale uma entrega de si, se ela não é completa? De que vale a oferta de uma ajuda se eu não fiz tudo o que podia? “Ah, mas pelo menos você fez algo, diferente de quem não faz nada”. Pode ser, mas isso não me convence mais. Quando você percebe que por preguiça de ser melhor você não é melhor, não tem mais como se enganar.

Se eu não posso oferecer o meu melhor como ser humano, então retiro o meu direito de esperar o melhor da humanidade. Algo precisa mudar. Ou eu, ou a minha esperança.

O céu de Ícaro encontrou o de Galileu

Dezessete segundos dentro de uma vida não é nada e pode ser tudo. Para mim, esse é o tempo entre a ousadia do passado [loucura, às vezes] e a garantia do presente. Explico.

No último domingo, um austríaco saltou de uma plataforma espacial alçada por um balão meteorológico até a estratosfera de nosso querido planeta azul. Durante sua queda, era possível perceber um contador mostrando quanto tempo ele ficou caindo. Foram 4m19s. Na parte debaixo da tela havia uma outra legenda, com o recorde mundial de tempo em queda livre: 4m36, Joe Kittinger, 1960. Mil novecentos e sessenta, cara. Fui pesquisar sobre esse tal de Joe e descobri que era o senhor de 84 anos que estava no centro de controle dessa missão, conversando com Felix Baumgartner, o austríaco que quebrou o recorde de maior altura em um salto em queda livre [39 mil metros], maior distância caindo [36 mil metros] e maior velocidade vertical em queda livre [1.174 km/h]. Assista [tem mais de 15 minutos]:

“Os Eleitos”. Parece nome de livro religioso ou de autoajuda, mas é uma aula de jornalismo literário do Tom Wolfe. O livro conta a história da corrida especial entre EUA e URSS (ex-União Soviética, se você nasceu depois de 1990) durante a década de 60. Os fatos relatados mostram a que ponto chegou a necessidade dos norte-americanos ganharem essa competição, com os pilotos muitas vezes não se importando com baixos salários e situações de risco extremo.

O nome do livro em inglês [“The Right Stuff”] traz algo peculiar: havia um fator determinante para alguém fazer parte dos eleitos, não mensurável por máquina alguma ou ciência inventada: the right stuff [a “fibra”, na versão em português, mas que não deixa o conceito tão etéreo e misterioso quanto o original]. The right stuff é o que diferenciava aqueles pilotos do resto dos pilotos. Alguns podiam até ser melhores do que outros, mas se não possuíssem the right stuff, eles não serviam para o trabalho.

Desconfio que Joe Kittinger, o ainda recordista de maior tempo em queda livre, seja o cara que tinha the right stuff. Era 1960 e ele ficou 6% de tempo a mais, em queda livre, do que um maluco 52 anos depois. O livro de Tom Wolfe mostra exatamente isso: não importava o quão simples ou crua era a tecnologia da época, esses pilotos só queriam ir para o espaço, acima de tudo, sem importar as consequências, sem importar [tanto] as condições. Aqueles homens fizeram coisas nas quais a tecnologia e os instrumentos da época não estavam preparados para eles. Mas alguém precisava fazer [segundo eles].

A declaração de John Kennedy, presidente dos EUA quando o homem chegou à lua, é uma das maneiras de entender esse espírito:

Nós decidimos ir à lua. E nós decidimos ir à lua nessa década, e fazer todas essas outras coisas, não por  ser fácil, mas por ser difícil.

Muitos se perguntam porque gastar tanto dinheiro com isso ou o motivo para uma marca levar alguém até à estratosfera, e então jogá-lo de lá.
Bem, porque eles podem. E porque alguém sempre vai fazer aquilo que gostaríamos e muitas vezes não podemos.

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Foto: Mariana Neri

As ilhas dobram por ti

Vi esse vídeo chamado “Island” e deu aquela vontade de ser feliz. “Mas você não é feliz, cara?”, me perguntam. Sou, mas essa é a frase de um amigo para expressar aquele sentimento quase melancólico quando se vê um pôr do sol incrível, majestoso, que traz a sensação de faltar algo. “Bate uma vontade ser feliz, saca?”, diz ele. E concordo.

Então fui procurar aquele poema que faz referência a “nenhum homem ser uma ilha isolada”. É do John Donne, poeta inglês que nasceu no século 16 e morreu no 17. [Quando escreverem sobre mim — quanta pretensão — gostaria que também dissessem que sou filho de dois séculos. Mas divago]. Fui ler o poema [original] e lembrei que já havia lido-o outras vezes, claro, mas uma em especial: quando tive contato com a obra de Hemingway e me apaixonei por seus textos. O primeiro livro que li dele foi “Por quem os sinos dobram”, frase retirada justamente desse poema do John Donne.

E quando penso em ilhas minha cabeça se inunda com as palavras d’O Conto da Ilha Desconhecida, livro de José Saramago, sobre um cidadão de um certo reino que queria ir em busca das ilhas ainda não descobertas. “Mas todas as ilhas foram descobertas, estão no mapa”, retruca o rei, que atendia pedidos da população e não queria ceder um barco ao aventureiro. “Todas, não. A ilha desconhecida ainda não foi encontrada”, diz o personagem.

Assisti ao vídeo, quis filmar minha esposa, bateu uma vontade de ser feliz, pensei em meu amigo, em meus amigos, lembrei de Hemingway e meu pai [responsável por me apresentar ao autor], pensei em como criamos nossas ilhas, como nos fazemos ilhas e nessa brincadeira sobrou um tantinho de terra até para a 3ª margem do rio.

De repente, tudo fez sentido.

Nenhum homem é uma ilha, sozinha; todo homem faz parte do continente, parte de outra terra; se um pedaço for levado pelo mar, a Europa diminui, como se fosse um monte, ou a casa de um de teus amigos ou até mesmo a tua; a morte de qualquer homem me diminui, porque faço parte da humanidade; assim, nunca perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.

Me balança, tio

Me senti um vencedor esses dias, quando tive que ir ao Poupatempo e me segurei quando a colega do cara que me atendia mandou: “E você acredita que eu, literalmente, dormi na cara dura do professor?” Imaginei o que poderia ser essa cena, literalmente, e achei melhor passar. Valeu a pena, pois naquele instante eu já era invisível pra ela, que continuou o papo: “E a Judite, você sabe como ela é, né, ela recebeu um cara aqui e, na hora de preencher a profissão, ele me solta: ‘Homem-Aranha’, e você conhece a Judite, né, claro que ela colocou Homem-Aranha no formulário. Menino, o moço não me voltou no outro dia vestido de Homem-Aranha!? Eu não sabia se ria ou se ficava com dó, mas ele falou a verdade, né?”

Ouvir conversa alheia, uma dedicação que tenho. Sigo pessoas na rua, falando ao celular, conversando com um colega, como se estivessem em casa. “Amiga, não é que minha filha falou ‘Se o papai não quer mais morar com você, eu também não quero ir pra casa dele’, uma fofa, né!?” Eu mesmo coloco o celular no ouvido pra disfarçar e acharem que não estou prestando atenção.

Claro, as pessoas também contam suas histórias pra mim, naturalmente, sem que eu precise segui-las. Meu avô, por exemplo, vai fazer 80 anos e ainda trabalha. “Meu neto, repare: toda vez que alguém vai sentar a pessoa olha onde vai acomodar o bumbum, é verdade!, não ria, repare. A pessoa olha onde vai sentar, mesmo que esteja no conforto de seu lar. Eu reparei nisso, sabe?, fiquei atento a isso. Foi aí que decidi vender espaço pra anunciarem nos bancos da praça aqui da cidade. Meu senhor — eu digo ao dono da farmácia — já que a pessoa vai olhar onde está sentando, porque não olhar pro nome da sua farmácia?” E o vô tem razão. E o vô é ‘dono’ de uns 30 bancos assim na cidade dele.

E criança, bixo. Adoro bater papo com elas. Não suporto infantilizar uma criança e gosto de pensar que elas me respeitam por isso. Ou simplesmente não entendem o que falo e me ignoram, uma liberdade que admiro.

Esses dias, o filho de um amigo, de 5 anos [acho que é isso, não sei, minha esposa que sabe a idade das crianças] estava na rede, olhou pra mim e: “Me balança? Agora é a hora do meu cochilo da tarde.”
– Você está com sono?
– É.
– E o que é estar com sono?, me explica como é isso.
– Ah, é como dormir nas nuvens.
– Verdade, cara. Essa é uma grande verdade. E como você sabe que está com sono?
– Ah, é quando eu faço assim, ó: Aaaaarrhhhh [bocejo]
– Saquei. E toda vez que sente sono, você dorme?
– É.
– Toda vez?
– Aham.
– E se você sente sono na escola?
– Ahn?
– É, você não sente sono quando está na escola?
– Nunca senti.
– Você é um cara de sorte, meu amigo. O tigrinho também vai dormir? [Ele estava abraçado a um tigre de pelúcia]
– É.
– Que legal. E qual o nome do tigrinho?
– …hum, Tigrinho, ué.
– Não, eu sei que ele é um tigrinho. Igual você: você é uma criança, mas seu nome é Arthur. Qual o nome do tigrinho?
– Tigrinho! Esse é o nome dele.
– Ah, OK, desculpe. Posso conviver com isso. Mas me conta, como vocês se conheceram?
– Olha, um dia eu cheguei em casa, de volta das férias, né, pra onde eu tinha viajado, porque eu viajei nas minhas férias, pra outro lugar, não era esse, aí voltei desse lugar, voltei pra casa e, olha!, ele tava lá em cima da minha cama! Me esperando!
– Rapaz, que legal!
– É.
– E nessa amizade: você que protege ele ou ele que te protege?
– Hum, ele me protege e eu protejo ele, os dois.
– Bela amizade você tem aí, cara. Não perca isso.
– É. Me balança, tio! Tô com sono.

E também teve um sono de dormir nas nuvens a criança minha que estava ali com ele, cansada de perseguir pessoas nas ruas pela curiosidade em ouvir uma conversa alheia.

California Games

Essa Olimpíada está muito divertida. Essa não, né? Provavelmente foi sempre assim, mas dessa vez estou assistindo pelo esporte, sem seriedade.

Dei sorte de pegar bons jogos, sem querer, como a conquista da medalha de ouro nas argolas de Arthur Zanetti. Foi emocionante vê-lo ser o melhor, tendo acompanhado todos os outros ginastas fazendo suas apresentações. Principalmente quando anunciaram o atleta porto-riquenho Tommy Ramos. Na verdade, acho que só assisti à competição inteira porque liguei a TV na hora que anunciaram o Tommy Ramos, que figura. Ele não lembra em nada o ator brasileiro, mas foi divertido ouvir a comentarista falar “Tommy Ramos” tantas vezes. [Eu não canso].

Outra coisa muito legal foi esse mergulho do alemão Stephan Feck:

Você pode ficar com dó, afinal o cara treina anos para isso. Mas, rapaz, que entretenimento! Ele só recebeu zero, de todos os juízes. Mas “Inspire gerações” é o tema de Londres, e esse mergulho conseguiu cumprir seu papel em minha vida.

Por outro lado, temos esse salto. Precisei vê-lo algumas cinco vezes até entender o que a guria faz:

Nem deve ter sido agora, mas eu queria colocá-lo nesse post, de algum jeito, talvez pra amenizar o mergulho de costas do alemão.

Conversando com um amigo chegamos à conclusão que “Jogos OIímpicos” só têm nome pomposo. Exemplo: Usain Bolt ganha os 100m rasos, é o homem mais rápido do mundo e comemora o feito no seu quarto: com três integrantes do time sueco de handebol. As Olimpíadas nada mais são do que Os Grande Jogos Universitários Mundiais Gigante.

Outro motivo que faz valer o sentimento: o ciclista que ficou em penúltimo lugar, saiu pra comemorar e voltou carregado pelos colegas para a Vila Olímpica. Troque Londres por Guaratinguetá e conheço histórias bem parecidas dos Jogos de Comunicação.

Por último, temos o cabra que ganhou a medalha de ouro de salto em altura esse ano, parabéns! Porém, em 2008 ele foi desclassificado, não conseguiu nem saltar. Estava bêbado demais. Valendo um abraço do Galvão se você adivinhar a nacionalidade do russo.

Todo mundo se preocupando com a Copa no Brasil, mas eu quero é ver como vai ficar o Rio de Janeiro, aquele caldo de suor, areia e mate com limão, abarrotado com a molecada de faculdade vindo competir aqui. Vôlei de praia, por exemplo, vai virar futevôlei, tendo Edmundo e Romário jogando. Pela Rússia.

Vamo meu Timão

Vamo, sem o s. É assim que se canta. Não importa seu nível social e gramatical, é assim que todos cantamos. Professores, mestres e doutores cantam assim no Pacaembu, já ouvi. É um dos gritos mais bonitos do Corinthians dos últimos tempos. Declara o louco amor que sentimos pelo time, juntos, da torcida que tem um time, que se explica porque grita até ficar rouca e pede: “Vamo, meu Timão. Vamo. Não para de lutar”. Por favor.

Não importa o resultado de hoje, entre Corinthians e Boca Juniors. (Mentira, claro que importa, mas vem comigo). A questão é que nosso grito não vai parar. Ganhando ou perdendo, não vamos parar de lutar, seja pelo que for. Afinal, somos uma nação ou não?

O PIB pode estar OK, mas a educação está capenga. A educação em tal estado está melhor, mas o saneamento básico ainda deixa a desejar. Não há mais favelas em determinada cidade, mas o índice de corrupção é o maior do estado. Uma nação sempre tem algo a melhorar. Sempre tem algo que não a deixa parar de lutar. Assim é o Corinthians.

Se ganharmos a Libertadores, teremos outras coisas a conquistar e melhorar. Sempre. Para mim, chegar a esse momento do campeonato já mostrou o que é possível, meio como em “Moneyball”. Vencer, é claro, todos queremos. Ah, como eu quero essa joça dessa Taça. Mas mesmo que vença, não quero ser o corinthiano satisfeito: “Pronto, missão cumprida”. Não é isso que a gente grita jogo a jogo, pô! “Vamo, não para de lutar”. Porque deveria aceitar, então, essa condição?

Nosso grito, nossa luta, vale para derrota e vitória. Se não soubermos disso, viveremos de fantasmas, sejam eles de coisas conquistadas ou desejadas, como os que já ganharam tantas Libertadores e Mundiais que se dão o direito de fazer troça conosco por algum tempo ainda. “Tudo bem que a gente não ganhou nada nos últimos 5 anos, a gente pode”.

Não, meu amigo corinthiano. A gente não pode, a gente não vai poder. Eu, pelo menos, não quero me dar esse direito. Quero a Libertadores, quero o Mundial, quero o Campeonato Paulista, o Brasileiro e a Copa do Brasil. E se um dia a gente ganhar tudo isso em um ano só, quero que no ano seguinte a gente faça de novo. E se a gente fizer isso por 10 anos seguidos, sempre vou querer um Corinthians que acredite em um time, não em um elenco. Podemos ter estrelas, desde que não sejam fundamentais para o nosso nome, para o nosso coração bater.

Se a gente para de lutar, a gente para de viver, para de cantar. E eu não quero isso.

Vamo, meu Timão.
Vamo.
Não para de lutar.
Por favor.

Mas aí tem isso, d’eu querer fumar meu cigarro em paz no fim do dia

Ao acender o cigarro, percebo como o ambiente já está cheio de fumaça. Meu impulso é reclamar, já que ela me incomoda, e muito.

Comecei a fumar recentemente. Sempre fui desses ativistas cheios de argumentos que provam que não é legal fumar cigarros. Os motivos são vários, comuns, clichês e, por isso, verdades. Mas também vi os benefícios que me traziam. Minimizar complicações, um refúgio e fuga rápida, além de tantos outros clichês de quem não consegue deixar o cigarro.

Mas aí tem isso, d’eu querer fumar meu cigarro em paz no fim do dia, no bar que costumo frequentar, lugar gostoso, mas a fumaça de todos os outros me incomodarem. Queria que o dono do estabelecimento desse um jeito nisso, sério. Tem gente demais fumando. Ficou fácil, sabe? Qualquer um pode chegar com seu cigarro, ainda mais com incentivo à indústria, né? Reclamo da fumaça de cigarro, mas o que me incomoda são os outros. O meu? É meu, oras. Levo para onde quiser, uso do jeito que quiser.

Agora faça um exercício e troque o cigarro por carros. Eu não fumo, nem tenho carro. Mas acho engraçado (só que não) que as pessoas que mais reclamam do trânsito são as que fazem parte do próprio trânsito. Saem de seus carros xingando a cidade, a infraestrutura, as vias, o prefeito, os outros motoristas e a quantidade de carros, tirando da conta seu próprio carro.

Claro que a cidade precisa melhorar. Claro que o prefeito não é dos melhores (e um dos piores). Claro que a nossa cultura do asfalto blablablabla.

Mas acho legal quem: 1) Evita reclamar 2) Evita ter carro. Fora isso, você não tem razão. Você é o trânsito.


foto: Daigo Oliva