O melhor de 2013 (até agora)

Falar que o álbum do Daft Punk e o 20/20 do Justin Timberlake são uma das melhores coisas que 2013 nos proporcionou até o momento é: 1) ser redundante e ouvir os amigos dizerem “Pode crer” ou 2) ser rechaçado por quem não gostou por que __________ [insira aqui o motivo à sua escolha]. Por isso não vou falar isso, embora seja verdade.

Uma das melhores coisas proporcionadas por 2013 é [também] o álbum Grownass Man, da banda The Shouting Matches. Sim, nome de banda hipster para um líder de banda digno de ter sua foto de um relicário pendurado no pescoço de um cara de óculos escuro em dia nublado no Brooklyn, em Nova York. O nome dele: Just Vernon [o cara do Bon Iver, pronto].

The Shouting Matches é tudo o que Bon Iver não é: alegre, feliz, pra cima… e bom. Claro, isso para quem não acha Bon Iver bom [eu acho]. Mesmo que você não ache, vá por mim: vale a pena ouvir esse novo projeto.

É um rock-blues de qualidade e muito bom gosto, boas referências. Nem parece o Justin Vernon. Na real, não parece porque nunca sentei numa jam com o cara para saber do que ele é capaz, mas é uma coisa inesperada para quem está acostumado apenas em ouvi-lo com o Bon Iver.

Permita-se ouvir algo bom e novo, um rock delicinha para quando você estiver cansado do pop certeiro e dançante do outro Justin e do eletrônico arrebatador do Daft Punk.

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Um vassalo feliz

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“Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.”

Álvares de AzevedoSpleen e Charutos, capítulo 3, Vagabundo

Já fui rei. Minhas terras se estendiam até onde os olhos da imaginação conseguiam enxergar. Soberano, não era uma questão de reconhecimento: como toda monarquia, era de direito meu, sem contestações. Rei é rei, e pronto. Claro que reis nascem, não tem isso de geração espontânea, mas qualquer vassalo já nasce sabendo quem é seu rei. Inquestionável. Se o rei morre antes do vassalo, vem outro, mas impávido da mesma forma. Inquestionável.

Construí territórios, expandi o reinado. Precisei trocar de trono por não caber tanto ouro e ornamento em meu pescoço e braços. Sem falar no peso da coroa. Sem ninguém questionar.

Porém, o peso do ouro não era cotado na bolsa de valores. Não havia lastro para meu ouro e pedras preciosas. Poeta e lúdico, já cheguei a contar uma história que aconteceu comigo, em uma mesa de bar, sendo desmentido na mesma hora por meu irmão: “Gá, isso aconteceu comigo.” Não foi maldade ou querendo roubar os créditos, mas histórias e reinos se misturam na minha cabeça. Benção e maldição, mas falo sobre isso outra hora.

E fui questionado. Dos que me dirigiram perguntas, uma única pessoa vale a pena mencionar: eu mesmo. Fui à guerra armado de perguntas, questionamentos que me levaram a desafios colocando meu reino à prova. E ele se esvaiu, como fumaça de fósforo recém-apagado. Um sopro que dissipa de forma suave, mas impávida. Inquestionável. Isso sim não tem como duvidar: você vê a fumaça se desfazendo, desaparecendo. Ninguém precisa te contar, é visível.

E invisível fiquei. Ou procurei ficar. Quando se perde um reino, para que terras correr? Mas era um reinado só meu, criado por mim, uma pátria exclusiva, só minha. Mas é isso, quis me esconder de mim mesmo. Pela primeira vez desci do trono e me olhei no reflexo das joias da coroa. Porém, não eram joias. Eram pequenas pedras, aparentemente sem valor, mas parte de mim. O que sobrou depois da fumaça se dissipar. Mas eram minhas. Aquelas pedrinhas eram eu, e estavam no meu caminho.

Mas não quis retirá-las: não eram tropeço, tampouco obstáculo. Eram pequenas e eram minha base. Podia fazer o que quisesse com elas. Descobri meu reflexo nelas e me encarei. A princípio não foi legal. Eu era rei, cacete. O que seria agora? Bem… eu seria o que eu quisesse.

Com as pequenas pedras, porém sólidas, comecei a construir algo meu. Sem fumaças, sem divagações. Deixo os sonhos e a imaginação para o que faço, não mais para quem sou ou quero ser. Com pequenas pedras, ergui uma construção humilde, longe de ser um castelo. Nem sei se quero castelos. A intenção não é essa. A intenção é construir algo meu, de verdade, por menor que seja, mas real.

Hoje consigo ser mais do que pedrinhas que me refletem. Sou menos rei do que já fui, mas pelo menos sou feliz, de verdade. Um vassalo feliz. É possível.

30 Carolinas

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Não se desespere, meu amor. Dizem que os 30 anos são os novos 20, mas te conheço e sei que você não está nem aí para o que dizem. É uma das coisas que amo em você: sua capacidade de dar valor ao que tem valor. Mas não se desespere.

Sei que você não se sente mais jovem quanto antes. Você me disse isso. Mas eu ainda te vejo como te vi no primeiro dia que saímos: deslumbrado por uma mulher incrível. Há 10 anos você já era mulher, sem saber. Te chamar de guria ou pequena nunca te fez menor ou mais infantil. Você foi a mulher da minha vida, naquele dia, e é a mulher da minha vida hoje, tendo passado por tantas outras vidas juntos.

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O sentimento de fazer parte da sua história e de todas as suas vidas desde que nos conhecemos é algo difícil de descrever. Esse é um dos seus super-poderes: trazer sorrisos a quem está próximo e deixar-nos sem palavras. Diante de você emudeço. Me falta vocabulário e referências, analogias e elucubrações. Sofro para escrever poucas linhas, merecedoras de você e de suas 30 Carolinas, que são incríveis e fantásticas, sagazes e engraçadas, inteligentes e divertidas, lindas e deslumbrantes.

Não ache menos de você: saiba. Não porque estou te dizendo, porque você é. Essa é a verdade e você é verdadeira. Só os tolos não acreditam na verdade. E você é sábia, saiba. Do tipo de pessoa que faz o clichê ser verdadeiro: ajuda o mundo a ser um lugar melhor. Acrescenta muito, pouco [ou quase nada] pedindo em troca. Aprendo tanto contigo, de mim, de você e de nós. Sou afortunado por dessa galera toda no mundo ser eu a estar ao seu lado não só nesse dia especial, mas em todos os nossos dias comuns, que se tornam especiais por você estar neles.

Não se desespere, meu amor. Não prometo que resolverei tudo, mas farei o máximo para se equilibrar. Para nos equilibrarmos. Tamo junto.

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Um corvo que leve para casa os meus ossos

Um livro reúne cartas e diários escritos por jovens durante a 2ª Guerra Mundial. Um dos relatos se passa próximo ao dia de meu aniversário, exatamente 40 anos antes de eu nascer. Veja um trecho publicado na Folha:

3-5.set.1943Dois de nós recebemos um tapa na cara e fui me deitar rangendo os dentes de dor. Eles estão sempre rindo de nós, acham que somos sujos e incultos. O capataz espancou um sujeito porque assoou o nariz no chão. Sua risada e suas zombarias estão me matando. Estou começando a me detestar e a me perguntar se sou realmente um porco, como eles dizem. Só queria estar de volta a minha boa e velha casa, junto aos dois salgueiros e ao lindo e frondoso álamo. Nunca mais voltarei a ver minha casa, nem mesmo haverá um corvo que leve para lá os meus ossos.
VASILY, 18, russo

A matéria diz: “Apenas três dos garotos que têm seus textos compilados no livro sobreviveram até o fim da guerra. Por isso, alguns relatos são interrompidos de uma forma abrupta”. Ao ler isso, imaginei alguém falando comigo, contando sua história de vida, desde o início até àquele ponto e, do nada, ficando calada. Não cai, não explode, só interrompe uma frase no meio dela.

Seus olhos, que antes se fixavam em mim, não se mexem, mas também não me olham mais, apesar de apontados para mim. Descubro, nesse momento, que o brilho dos olhos é que dão sua direção. Por isso eles não me atravessam, tampouco param em mim… esses olhos já não estão mais aqui, se foram. A história foi interrompida enquanto contada e eu nunca saberei o final dela. Pois, embora tenha terminado, não foi seu fim. Não era pra ser esse fim… não esse.

Não conhecerei suas histórias, não saberei que apesar de tudo sobreviveu, pois isso não aconteceu. Nem mesmo saberei de seus sonhos. Eles se foram. E nem seus sonhos conhecerão a vida.

Toda feia e malcuidada

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Ela é assim, toda feia e malcuidada. Em uma família à margem do que não é muito bem quisto, consegue ser a preterida. Não a procuram pra fazer matéria de final de ano ou Carnaval, nem mesmo as apelativas. Suja e caçoada, ninguém se apega a ela e não sei se é ela que não permite ou, justamente por não a procurarem, também não se esforça. Mas ontem a Barra Funda conseguiu arrancar um sorriso meu. Sei que não vale muito, mas também não sou fácil.

Desde que me mudei para a região, passei a utilizar mais sua estação de trem e metrô. Sua praça de alimentação é como abrir uma caixa de pizza sabor 32 queijos com cobertura de pipoca. As vésperas de feriados, e até mesmo algumas quintas e sextas-feiras, promovem auês em suas imediações dignos de uma Mumbai. São ônibus clandestinos estacionados do lado B da rodoviária, nada de pararem na avenida do Memorial. Eles ficam na saída dos ônibus “oficiais”, tendo como plataforma a calçada que se estende até o final da rua da Várzea, acompanhando a linha do trem e que fica de frente para a Record. Tem café, bolo de fubá, pão de queijo, leite quente, salgadinho, pilha, rádio e, claro, cigarros. Pilhas de Eight sendo vendidos nas barracas e descartados nos chãos.

Tem quem sinta repulsa por um ambiente assim, mas como um autêntico paulistano filho de migrantes, nascido e criado na cidade, sei que isso faz parte do show. Mas ninguém disse que seria uma comédia. A sujeira criada pela desordem e clandestinidade não ajudam a região, muito menos a própria estação da Barra Funda, que muitas vezes acaba sendo apenas um mal necessário no caminho de quem quer chegar logo a seu destino.

Mas ontem não. Ontem ela foi palco de um show mais bonito. Sei que estou personificando um amontoado de concreto para esse texto desde a primeira linha, mas em São Paulo as pedras dessa selva têm vida. Ninguém pode me dizer que as marquises de Pinheiros, por exemplo, não são a extensão folhosa de árvores frondosas que possuem o formato de pequenos predinhos e comércios da Teodoro. E a Barra Funda foi atuante nessa cena.

Meu ônibus passou em frente ao terminal, pela avenida. Dentro dele havia uma moça com uma cara um tanto quanto distante, melancólica. Fiquei triste com ela por alguns segundos, mas só por alguns segundos. Olhando pela janela, pude vê-la abraçada a uma mulher um pouco mais velha que ela. Fosse irmã, mãe, tia ou amiga: o abraço foi eterno. O ônibus partiu do ponto e, até onde pude acompanhar, elas continuaram abraçadas. Gosto de imaginá-las abraçadas ainda ali, tendo a Barra Funda como palco de algo tão raro e precioso quanto um abraço eterno.

É complicado

No fim da Linha Vermelha, quase na Dutra, o dia amanhecendo. Não há cena mais triste para se deixar o Rio. Você olha pelo retrovisor e lá está o sol, aparecendo por detrás do Galeão, sabendo que você não estará ali junto com ele na hora que passar o latão com mate e limão.

Felizmente, aquele tanto de concreto da Dutra nos faz esquecer as belezas naturais do Rio. Você já passou pela fase de negar que está deixando a cidade, teve raiva com o trânsito, negociou suas barganhas mentais [“Vou fazer mais bate-voltas ao Rio”], já ficou deprimido ao lembrar que não conseguiu realizar essas viagens tanto quanto prometeu e já aceitou o fato de estar na estrada para São Paulo.

Eis que a serra termina, você pronto pra mergulhar na segunda parte da estrada, pimpão e, ali na esquerda, uma placa simples, daquelas de só ter o nome da cidade e um flecha, indicando a direção. Sem falar sobre “Saída 18-B” ou quantos quilômetros faltam. Nada. Apenas:
<— Rio de Janeiro | São Paulo —>

E essa placa, rapaz… Essa placa é uma coisa difícil de explicar. É como se você fosse um adolescente que terminou aquele romance de verão, já estava voltando pra casa, dentro do carro e, no caminho, a guria está na calçada da rua onde você ficou, com um olhar menos triste e mais “É isso mesmo? Última chance…”

E lá está sua última chance de voltar ao Rio, você e sua esposa, mais nada, mais ninguém. Tudo o que vocês precisam está dentro do carro, faça as contas. Mas não. Dessa vez, não. Um dia, quem sabe. Quando você tiver a liberdade que procura. Quem sabe, naquele dia em que você estiver voltando sem precisar e puder ficar mais um pouco, não peço muito. Um dia, quando o sol for mais forte do que a garoa e os dias nublados, quem sabe. Um dia.

Hoje? Hoje eu só queria arrancar aquela placa dali. O que os olhos veem, a saudade sente.

Quem vai virar o jogo?

Fiquei pensando em um jeito de começar esse texto, com alguma analogia ou de onde veio a ideia, mas às vezes a melhor maneira para um início é ir direto ao assunto [desconsiderando, claro, essa minha introdução]: quando nos oferecemos para segurar a bolsa ou a mochila de alguém no ônibus achamos que estamos ajudando o mundo a ser um lugar melhor. Mas você acha isso mesmo? De coração? Pois eu não acredito.

Claro, existe uma pessoa ali do nosso lado, carregando o peso de seus acessórios e nossa ajuda possibilita que ela se segure melhor nas barras e se desequilibre menos, tirando um peso dos ombros e até ajudando o fluxo de passageiros no corredor. Mas por que a gente não se levanta e oferece nosso lugar? Por que a gente se contenta em segurar a sacola pesada e acha que isso é o suficiente? Não estamos fazendo nada de ruim, mas não estamos fazendo nosso melhor. E isso me incomoda.

Estamos satisfeitos em só fazer o mínimo esforço necessário para que a nossa ajuda não chegue a nos prejudicar. E toda vez que me ofereço para segurar a mochila de alguém, me sinto sujo. Pois sei que eu poderia ser melhor do que aquilo. Eu só não quero ser. No fundo, eu escolho não ser melhor.

E estou cansado disso. Cansado de me satisfazer com o suficiente para aliviar minha culpa, aliviar o peso da pessoa, mas não fazer tudo, exatamente tudo o que estava ao meu alcance para facilitar a vida da pessoa ou ajudá-la de forma completa. Apenas o necessário para não ter eu que ficar em pé; não ser eu a ficar incomodado, apertado e esbarrado no corredor. De que vale uma entrega de si, se ela não é completa? De que vale a oferta de uma ajuda se eu não fiz tudo o que podia? “Ah, mas pelo menos você fez algo, diferente de quem não faz nada”. Pode ser, mas isso não me convence mais. Quando você percebe que por preguiça de ser melhor você não é melhor, não tem mais como se enganar.

Se eu não posso oferecer o meu melhor como ser humano, então retiro o meu direito de esperar o melhor da humanidade. Algo precisa mudar. Ou eu, ou a minha esperança.