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Se vai buzinar, que seja para se divertir

No final do ano, em um sábado há poucas semanas do Natal, fiquei 30 minutos preso em uma fila de carros para sair do estacionamento de um shopping. Motivos à parte, as pessoas começaram a buzinar depois de uns 10 minutos. Achei que demorou até, considerando o que já vi anteriormente. Porém, ficou ensurdecedor depois de ter começado. Pais tapavam os ouvidos de seus pequenos enquanto caminhavam pelo estacionamento.

Minha esposa, então, sugeriu: “E se você buzinasse ‘Tã-tã-tã-tã-tã’ e esperasse ver se alguém completa com ‘Tã-tã’?”

[A melodia — ou ritmo — é o que vemos no filme do Roger Rabbit quando o Christopher Lloyd quer provocar o coelho a sair de trás da parede.*]

Esperei uma pequena pausa no buzinaço e puxei algumas vezes a buzina que convidava os outros carros a completarem.

“Se vai buzinar, que seja pra se divertir, né?” ela comentou comigo.

E não demorou para que: 1) os carros parassem de buzinar continuamente de forma irritante e barulhenta em um lugar com mais eco que meu banheiro 2) alguns completassem a brincadeira sugerida por mim, inibindo a ‘buzina reclamação’, dando lugar a diversos carros de gente grande para que se transformassem em crianças com seus brinquedos 3) outros carros também começassem a puxar o ritmo, no que eu pude também completar a brincadeira e sair às gargalhadas de um trânsito de 30 minutos, em vez de estressado e odiando a humanidade.

Obrigado, Carol, pela graça alcançada.

* A música chama-se “Shave-and-a-Haircut”: http://youtu.be/VgPiIpboxt0?t=17s

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Papai Noel

Não sei até quantos anos acreditei em Papai Noel, mas lembro da última vez em que achei fosse possível que ele existisse. Eu já não acreditava nele, mas um tio de meu pai, psicólogo, quis brincar com a gente. Passaríamos aquele Natal na casa deles e, semanas antes, ele começou a jogar no ar esse assunto. Perguntava se eu ainda acreditava em Papai Noel e quando disse categoricamente que não, que besteira, ele perguntou “Por que?”. Aí deu um nó, claro. E foi assim por algumas semanas.

No dia 24 de dezembro, fomos para a casa de meus tios e tudo correu como o planejado. Jantar, conversas, risadas etc. Pouco antes da meia-noite, meu tio voltou ao assunto “Papai Noel” e começou a dizer que ele existia sim. De repente, ele parou de falar. Ficou olhando para o nada, como um caçador tentando ouvir os passos de sua presa. “Acho que tem alguém lá fora”. Dei risada, já imaginando o que ele estava tentando fazer. Ele continuou sério, não dando bola para mim. “Sério, ouçam” e ficamos todos em silêncio. Ouvimos alguns passos e corremos para o andar debaixo da casa. Havia presentes no quintal e me assustei, pois tinha ido lá pouco tempo antes e não vi nada. Meu tio continuava sério e ficamos em silêncio novamente. Ouvimos o som de guizos na varanda de cima e subimos correndo a escada que ligava o quintal àquela varanda. O som dos sininhos foi ficando distante e eu fiquei olhando para todos os lados, para cima, procurando alguma coisa, sem saber o que exatamente.

Fiquei um tempo olhando para o céu, estrelado. Estava admirado por algo tão mágico ter acontecido naquela noite e eu estar presente. Ainda não sei como meu tio fez aquilo, já que em nenhum momento ‘sumiu’ alguém da família. Na verdade, prefiro não saber. Nunca perguntei e pretendo que continue assim.

Vivi aquela experiência como a última vez em que acreditei no senhorzinho de barba branca e roupa vermelha. Mesmo sabendo que ele não existia, acreditei pra valer e, de certa forma, ele acabou existindo, para mim. Pela última vez, é verdade, mas com a lembrança de um tempo em que eu acreditei no Papai Noel.

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foto: Oscar Segovia