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Por seu sorriso

Não acho que era uma questão de tristeza ou de não ser divertida. Ela parecia ter seus momentos de felicidade, como muita gente consegue em diferentes histórias; e era querida, uma presença sempre bem-vinda. Não consegui entender ainda o motivo, mas nunca vi uma gargalhada dela e, quando pensando sobre isso, não conseguia imaginá-la gargalhando.

Mas sorria. O intento de todos os conhecidos — uma vez apresentados a seus lábios que formavam um arco ao contrair um pouco os olhos enquanto sua pele na maçã do rosto ficava mais rosada, suas pupilas brilhando de excitação e emoção, mirando em algo que poucos podiam ver, mas percebiam refletidos em seu sorriso — o intento de todos era viver por esse momento, por seu sorriso.

Ainda assim, o desprendimento de gargalhar, sem controle de si ou preocupação com o barulho, despretensiosamente se entregando ao momento que quebra protocolos e a poesia educada — já que esse tipo de estouro poucas vezes acontece com classe ou graça e conversa mais com a prosa — ainda assim não era possível visualizá-la nesse abrupto gargalhar.

Por isso, por toda essa não-possibilidade de algo, parecia faltar algo em si, que a completasse, que a fizesse relaxar e esquecer de si, por alguns segundos. Talvez seja isso. Só se permite gargalhar quem esquece de si, e isso ela não conseguia. Nem sabia que não conseguia, mas também não tive coragem de contar que era preciso ser mais leve para não pensar em si, e como poderia cobrar isso dela, que tanto havia sofrido?

Mas sorria. Sorria de forma bela e sincera, principalmente quando o sol saía e aquecia sua face. Era involuntário, um sorriso não percebido, desses que escapam furtivamente, com estripulia, uma fuga sem prisão, fugir apenas pela brincadeira de sair. Assim era seu sorriso, e o sol vivia por esse momento, com o intento de seu sorriso.

E conseguia.

Menino de barba

Escrevi sobre o sorriso das crianças, mas em dois dias descobri o sorriso dos idosos.

idoso_osegovia_menorSexta-feira passada, de manhã, foi ao ajudar uma senhora saindo do ônibus. Ela descia os degraus com dificuldade e o último deles parecia muito distante da calçada. Estiquei minha mão, ela se apoiou, viu que era um ‘menino’ ajudando e sorriu. Valeu meu dia.

No dia anterior garoava com vento. No ponto de ônibus, mesmo embaixo da parte coberta, molhávamo-nos, eu e as três senhoras. Abri meu guarda-chuva e deixei-o de lado, para me proteger do vento. De forma sutil, aproximei-me das senhoras, até que meu guarda-chuva [perdeu o hífen?] as protegesse também, embora não completamente. Passados alguns segundos, uma delas percebeu e veio bem embaixo do guarda-chuva, ficando quase colada em mim. Ela tinha a voz da Nair Belo: “Meninas, venham pra cá também! Tá quentinho!”, falou Dª Terezinha. “Olha que coisa mais fofa esse menino” [eu, no caso, o mesmo da barba que assusta criancinhas do outro texto]. As duas outras senhoras se achegaram e ficaram pertinho de mim. A mais linda de todas, que infelizmente não lembro o nome, foi em um ônibus antes do meu e a Dª Terezinha ficou para pegar o próximo, com a que tinha um guarda-chuva no braço, mas não negou o meu abrigo.

foto: Oscar Segovia

Confesso que a invejei

Foram frações de segundos. Mas tudo isso se passou pela minha cabeça.

Fui atravessar a rua e ela estava sentada no chão. Uma senhora mais morena do que eu, com cobertores ao redor, uma caixa de papelão dobrada para sentar em cima e algumas sacolas. Parecia estar descansando. Estava na esquina, ao lado de uma pequena árvore, que começa a nascer. Ela só olhou para mim e sorriu. Como se fosse uma velha conhecida, apenas sorriu. Não estendeu a mão, não fez cara de dó. Sorriu feliz, de fato. Não tentava agradar ou amolecer meu coração. Estava realmente feliz e expressou o sentimento com um sorriso absolutamente sincero.

Confesso que a invejei, com suas roupas um tanto quanto sujas e gastas. Invejei aquele sorriso autêntico e verdadeiro. A meu ver, ela não tinha motivos para isso. Estava frio, ela não tinha uma casa para morar, um travesseiro para encostar a cabeça quando se sentisse cansada e, provavelmente, dependia da boa-vontade de outros seres humanos para sobreviver. E sejamos sinceros, nós conhecemos bem os seres humanos e que boa-vontade hoje em dia está em falta.

Eu, com minha casa, roupas, cama, edredons e cobertores, iPod e computador, tênis e sandálias, invejei aquele sorriso que nada pedia. Apenas sorria, escancarando a alegria de alguém que ‘não merecia’ aquele sentimento e expondo os meus próprios sentimentos, de quem tem uma vida boa e, ainda assim, não consegue sorrir como ela. Ficou bem óbvio que o que garante esse sorriso não são as coisas que temos. Na verdade, isso sempre foi ‘óbvio’, mas é incrível como nos esquecemos dessas obviedades. O motivo do sorriso é algo mais verdadeiro, algo menos passageiro. Aquela mulher é livre para ser feliz, porque ela não tem nada a perder.

O fato é que ela conseguiu me fazer bem. Quando ela sorriu, minha cara automática de “Desculpe, não tenho nada”, como se ela estivesse pedindo algo, se desfez. Por uma fração de segundo, fiquei sem saber como reagir. Mas aquele sorriso foi fundo. Naquele instante, não havia diferença entre nós. A quantidade de coisas que cada um possuía não fazia a menor diferença. O que fez diferença foi ela ter olhado para mim de igual para igual, me fazendo merecedor daquele sorriso, tanto quanto ela. Com aquele sorriso, ela me trouxe para um patamar de reconhecimento como poucos seres humanos conseguem realizar. Ela me disse: “Sorria, meu querido. Você também pode. Não importa o que digam, esse sorriso é seu também. Faça parte dele.”

E eu fiz, da forma que pude. Sorri de volta para ela, como poucas vezes sorri de volta para alguém. Era um sorriso de agradecimento, pelo que ela havia feito comigo naquele instante. Sorri pela alegria dela e pela alegria que ela havia proporcionado. Como disse, no primeiro instante, eu a invejei. Depois, desejei aprender a ser tão feliz quanto ela, não importando o que eu tenha, quem eu tenha ou onde eu esteja.

Selina sorria

Como as folhas de uma árvore frondosa quando recebem o vento para mexê-las e cada uma se move independentemente, mas de forma uníssona. Era esse o som de seu sorriso. Apaixonara-se por ele. Seu objetivo de vida tornara-se fazer com que Selina sorrisse. Era uma tarefa delicada. Tinha que achar o equilíbrio entre uma risada e um mero sorriso amarelo. Passou a vida para ouvir seu sorriso. Em vão. O sorriso de Selina possuía um destinatário.

Um dia, adormeceu debaixo de uma árvore, com o sorriso de Selina a beijar as folhas que vinham se acomodar ao seu redor e transformá-lo parte integrante dessa canção alegre. Foi, sorrindo, que ouviu Selina chamá-lo ao longe e ao longe ela ficou, distante de tudo o que fazia sentido a ele, que, ao acordar, não agüentou a triste canção de sua vida e nunca mais foi visto sorrindo.